BRASÍLIA – A onda de retrocessos socioambientais promovida pela bancada ruralista durante o governo Temer é tão grande que agora ameaça o próprio setor produtivo. O Senado deve votar, nesta terça-feira (27), um projeto de lei que autoriza o cultivo de cana-de-açúcar na Amazônia Legal, proibido há oito anos. Se aprovado, o projeto será trágico para as florestas e também para a indústria de biocombustíveis do Brasil – que sofrerá um dano de imagem difícil de reparar num período crítico para o sucesso do etanol.O Projeto de Lei do Senado nº 626/2011, do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), é antes de mais nada desnecessário para a indústria sucroalcooleira. O zoneamento da cana, aprovado por decreto em 2009, autoriza a expansão do cultivo em 70 milhões de hectares. Isso é dez vezes mais área do que a expansão projetada da lavoura até 2020. Portanto, não falta terra para plantar cana de forma sustentável.Permitir o cultivo na Amazônia, mesmo que em áreas degradadas, significa acrescentar mais um motor ao desmatamento na região: a pecuária será empurrada para novas áreas para dar lugar à lavoura, estimulando a devastação onde hoje deveria haver aumento de produtividade. Toda a infraestrutura de processamento precisaria se instalar ali, o que aumenta a pressão sobre a floresta. Cria-se um problema onde hoje ele não existe, e sem nenhuma justificativa consistente.Além do risco ambiental, a proposta também joga na lama a imagem dos biocombustíveis do Brasil. O zoneamento da cana, afinal, foi feito exatamente como resposta a ameaças de imposição de barreiras comerciais não-tarifárias às exportações de álcool do Brasil. Revertê-lo atesta a nossos compradores que o Brasil não é um país sério, já que é incapaz de manter uma salvaguarda ambiental num tema discutido com o setor e pacificado há quase uma década. Isso fez a União da Indústria Sucroalcooleira, a Unica, manifestar-se, em 2017, contrariamente à proposta.Prejudicar a indústria dos biocombustíveis significa prejudicar também o clima. Além de ter sua meta no Acordo de Paris para o setor de energia baseada, entre outros, na produção sustentável do etanol, e viabilizada com a lei do RenovaBio, o Brasil também lidera esforços internacionais de desenvolvimento de biocombustíveis para a descarbonização rápida do setor de transportes. Essa liderança é ferida de morte pelo projeto de Flexa Ribeiro.Já para nossos concorrentes, em especial os produtores de etanol de milho dos Estados Unidos, trata-se de uma grande notícia: o álcool brasileiro é mais barato e energeticamente muito mais eficiente, e tirá-lo de circulação é o sonho da concorrência – principalmente em tempos de escalada protecionista promovida pelo governo de Donald Trump.O PLS 626/2011, pautado de surpresa no último dia 21, atende a alguns interesses privados e acaba beneficiando estrangeiros enquanto impõe graves ameaças à Amazônia e ao setor de biocombustíveis. Repudiamos qualquer tentativa de votá-lo em plenário. Em respeito aos interesses maiores do país, cabe ao presidente Michel Temer e ao presidente do Senado, Eunício Oliveira, darem a esse projeto de lei o único destino aceitável: o arquivamento. ASSINAM ESTA NOTA:Amazon WatchAmigos da Terra Amazônia BrasileiraAssociação Alternativa TerrazulAssociação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi)Associação de Proteção a Ecossistemas Costeiros (Aprec)Centro de Ação Comunitária (Cedac)CI-Brasil – Conservação InternacionalComissão Pró-Índio de São PauloConselho Nacional das Populações Extrativistas – CNSEcoa – Ecologia e AçãoEngajamundoFórum da Amazônia Oriental (FAOR)Fórum Mudanças Climáticas e Justiça SocialFundação SOS Mata AtlânticaFundación AvinaGambá – Grupo Ambientalista da BahiaGreenpeaceRede GTAInstituto BV-RioIdesamInstituto Amazônia Solidária (IAMAS)Instituto Centro de Vida (ICV)Instituto ClimaInfoInstituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia – IdesamInstituto EcoarInstituto de Manejo Florestal e Certificação Agrícola (Imaflora)Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé)Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon)Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB)Instituto Socioambiental (ISA)IPAM AmazôniaLaboratório de Gestão de Serviços Ambientais-UFMGMater Natura – Instituto de Estudos AmbientaisObservatório do ClimaProjeto Hospitais SaudáveisProjeto Saúde e AlegriaRede de Cooperação Amazônica (RCA)Rede ODS BrasilSociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS)SOS PantanalUma Gota no OceanoWRI BrasilWWF-Brasil