Um trabalhador espalha grãos de arroz durante o process ode secagem após a colheita na vila de Pontang em Serang, na Indonésia
Beawiharta/Reuters
Se há um fenômeno criado pelo nosso sistema econômico que a Oxfam (organização mundial não governamental especializada em destrinchar as questões que levam à pobreza extrema) não deixa passar em branco, é a desigualdade. Dos inúmeros viezes que colaboram para aumentar o fosso entre pobres e ricos, poucos escapam às lentes dos estudos encomendados pela organização. Já é tradição, por exemplo, a Oxfam lançar um relatório sobre desigualdade um ou dois dias antes do Fórum Econômico Mundial, que reúne anualmente em Davos, na Suíça, líderes empresariais e de nações, além da sociedade civil, para debater sobre questões socioeconômicas e ambientais. Muita gente se emociona, os números são alarmantes, e os holofotes da imprensa mundial ficam, por alguns dias ao menos, debatendo sobre um de nossos problemas mais graves da atualidade.
São também conhecidas as campanhas lançadas pela ONG, sempre botando o dedo na ferida de questões adversas, muito conhecidas mas, em geral, que pouco afetam o dia a dia do cidadão comum. A mais recente, que ontem chegou às redes sociais, denuncia a exploração econômica enfrentada por milhões de pequenos agricultores e trabalhadores nas cadeias de fornecimento alimentar. O objetivo é “mobilizar a força das pessoas em todo o mundo para ajudar a acabar com isso”, como diz Winnie Byanyma, diretora executiva da Oxfam Internacional.
Assim como eu estou dando luz à campanha, outros jornalistas de todo o mundo devem estar fazendo o mesmo. E a roda de reflexões girará novamente em torno de um tema importante para todos nós.
Junto com a campanha foi lançado um estudo, a partir de pesquisas com trabalhadores das cadeias de fornecimento de supermercados em vários países, que concluíram que a grande maioria tem dificuldades para alimentar adequadamente suas próprias famílias. É a desigualdade em estado mais bruto.
“Nossas evidências mostram que os gigantes do setor de supermercados estão abocanhando uma parte cada vez maior do dinheiro que seus clientes deixam no caixa, enquanto uma fração pequena – e cada vez menor – chega a quem produziu seus alimentos. A desigualdade que decorre daí é difícil de aceitar”, acrescenta Byanima.
Só para se ter uma ideia, o relatório mostra que uma mulher que trabalha em uma unidade de beneficiamento de camarão, na Tailândia, leva mais de cinco mil anos para ganhar o salário anual médio de um executivo bem pago de um supermercado nos Estados Unidos, e mais de 1.700 anos para se equiparar ao do Reino Unido. E mais: só 10% do dinheiro pago aos acionistas dos três maiores supermercados dos Estados Unidos em 2016 seriam suficientes para elevar o salário de mais de 600 mil trabalhadores na indústria de camarão tailandesa a um patamar digno.
É um modelo de negócio que, a cada dia, se mostra mais insustentável, conclui o estudo. “ Não há razão que justifique o desrespeito aos direitos humanos e trabalhistas das mulheres e dos homens que fornecem aos supermercados. Não há desculpa moral para a fome de quem produz a nossa comida”, diz o relatório, que marca o lançamento da campanha que terá foco nos supermercados e vai buscar acabar com o sofrimento humano nas cadeias de fornecimento alimentar.
Uma das raízes para o problema certamente está na concentração: três conglomerados dominam quase 60% do movimento global de sementes comerciais e agrotóxicos, situação que a indiana Vandana Shiva, criadora do Banco de Sementes, também denuncia com frequência em suas palestras e artigos . E mais: 50 fabricantes de alimentos respondem por metade de todas as vendas do setor no mundo e na União Europeia apenas dez supermercados respondem por mais de metade de todas as vendas de alimentos no varejo.
Se estivesse dando certo, ou seja, se estivesse cumprindo com a missão de levar comida a todos, possivelmente as redes de supermercado e varejo de alimentos não seriam incomodadas pela sociedade civil. Só que não está. Um registro no site da Organização Mundial da Saúde (WHO na sigla em inglês) em junho deste ano mostra que, após declínio constante por mais de uma década, a fome global está em alta novamente, afetando 815 milhões de pessoas em 2016, ou 11 por cento da população global, ao mesmo tempo que múltiplas formas de desnutrição estão ameaçando a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo. A questão, pelo que já se mostrou em vários estudos, não é que falte alimento no mundo. O que falta é dinheiro para comprar.
Sendo assim, está mais do que na hora de mudar os rumos desta história e tirar das mãos de tão poucos a responsabilidade de alimentar a tantos. E a Oxfam, com este estudo, se compromete a ajudar nessa mudança. Não à toa, o título do relatório é “Hora de mudar”.
Uma primeira sugestão pode ser desconfiar de que não é exatamente correto pagar tanto a acionistas se quem produz o alimento que a rede de supermercados vende está à míngua.
“Os oito maiores supermercados de capital aberto do mundo geraram cerca de 1 trilhão de dólares em vendas em 2016 e quase 22 bilhões em lucros. Em vez de reinvestir em seus fornecedores, no mesmo ano eles pagaram mais de 15 bilhões de dólares aos acionistas”, mostra o estudo.
Uma coisa puxou a outra. Ao mesmo tempo em que governos de muitos países passaram a adotar uma agenda de liberalização do comércio e desregulamentação dos mercados de produtos agrícolas, o poder dos supermercados foi aumentando. Enquanto isso, também mundialmente o poder dos trabalhadores foi decrescendo e o poder de negociação deles, incluindo aí os pequenos agricultores, foi baixando.
No mais cruel cenário de desrespeito aos direitos humanos no trabalho, os pesquisadores do relatório contam a história de Mawar, que aparece na foto de Adrian Mulya, da Sustainable Seafood Alliance Indonesia , com a cabeça escondida. Ela vivia num dormitório próximo a uma fábrica de camarão onde trabalhava, na Indonésia, e era obrigada até a beber pouca água para não ir ao banheiro e com isso “perder tempo” de trabalho.
Há desses disparates também em cadeias de fornecimento de produtos alimentares, cometidos até por pequenos agricultores. Segundo o estudo, a pressão que os supermercados exercem sobre tais fornecedores é tamanha que o único jeito é criar esta cadeia não virtuosa, onde os pequenos são massacrados para não deixar os grandes sem seus produtos. Isso cria um dos mais cruéis paradoxos: o povo que produz a comida que vai para os supermercados, muitas vezes, dorme com fome no fim do dia.
“Na África do Sul, mais de 90% das trabalhadoras entrevistadas em fazendas de uva disseram não ter tido alimento suficiente no mês anterior. Quase um terço disseram que elas próprias ou um membro de suas famílias tinham ido dormir com fome pelo menos uma vez naquele período. E 72% das pequenas produtoras de banana entrevistadas nas Filipinas afirmaram ter tido preocupações com a alimentação da família no mês anterior”, diz o relatório.
Bem, é claro que há soluções. Assim mesmo, no plural, porque a encrenca é imensa. Nós, cidadãos comuns, podemos, por exemplo, começar a dar mais força para redes agroalimentares alternativas, venda direta de agricultores, sugere o relatório. E os supermercados, para sermos bem diretos e sem rodeios, precisarão repensar suas práticas de comércio. Quanto aos governantes, têm que ter um olhar cuidadoso para o problema e investir em projetos, em políticas…
Seja como for, é muito bom que o assunto esteja na roda.
Amélia Gonzalez
Arte/G1