Novo regulamentação é sugestão do Japão, que tem apoio de países como Noruega e a Islândia. Mais de 80 países devem se posicionar em votação nesta sexta-feira (14). Ativistas participam de protesto durante a conferência da Comissão Internacional Baleeira (IWC), em Florianópolis
Sebastian Rocandio/Reuters
Uma possível liberação da caça comercial às baleias passa por discussão nesta quinta-feira (13) com a Comissão Internacional Baleeira, em Florianópolis. Segundo especialistas ouvidos pelo G1, o órgão internacional reúne 89 países para estabelecer a regulamentação no tratamento a esses animais no mundo.
O Japão encabeça a discussão e propõe a liberação da caça comercial desses animais. Eles são apoiados por outros países. A votação da proposta foi adiada para esta sexta-feira (14). Veja o que está em jogo:
Qual é o papel desta comissão internacional?
A Comissão Internacional Baleeira é um organização que propõe acordos entre 89 países. Ela toma decisões com base em uma maioria simples ou por 75% dos votos. Além da caça às baleias, a comissão também debate outras medidas de proteção ou mudanças nas regras relacionadas a esses animais.
Desde quanto a caça comercial é proibida?
Desde 1982 existe uma moratória da Comissão que proibe qualquer atividade de caça comercial de baleias no mundo.
A proibição passou a valer para todos os países?
Sim. Mas, de acordo com Leandra Gonçalves, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) que está em Florianópolis junto com a delegação do Greenpeace, o Japão usou uma brecha para conseguir burlar as regras estabelecidas internacionalmente.
“Eles usam a brecha na regulamentação que diz que você pode usar a atividade de caça desde que seja com fins científicos. Então, desde a década de 80, o Japão realiza a atividade de caça comercial travestida de ‘fins científicos'”, disse.
A Noruega e a Islândia fizeram uma objeção à moratória. Então, eles não são parte da regulamentação da Comissão Internacional Baleeira e praticam a caça comercial em suas águas nacionais.
Alasca, Groenlândia e Dinamarca têm autorização para caça às baleias por comunidades aborígenes.
Animais de menor porte, golfinhos e baleias pequenas, não estão incluídos na determinação de 1982 feita pela Comissão. É o caso da temporada de caça na Ilhas Faroe, na Dinamarca, frequentemente questionada por organizações de proteção ao meio ambiente.
Descendentes dos vikings, os moradores das Ilhas Faroe mantêm a prática do ‘Grindadrap’ (‘caça a baleias’, no dialeto local) há vários séculos.
Andrija Ilic/Reuters
Por que a caça foi proibida no mundo?
A Comissão foi fundada em 1946 porque os países que faziam caça às baleias queriam fazer estimativas e estudos para conseguir descobrir qual o número de animais que poderiam ser mortos sem acabar com a população, e assim manter o comércio.
“Porém, ao longo dos anos, os países foram mudando de opinião e foram deixando de ser países baleeiros para se tornarem países pró-conservação. Isso aconteceu com Austrália, Nova Zelândia, Brasil, Argentina, Chile, países da União Europeia”, disse Leandra.
A maioria dos países passou a defender maior rigidez contra a caça, até a aprovação em 1982 da carta moratória de proibição da caça a esses animais nas águas do planeta.
Países se reúnem em encontro para discutir a caça das baleias
Por que querem retomar a caça comercial de baleias?
Os japoneses argumentam que querem fazer uma caça comercial sustentável de baleias. Mas, na opinião de Leandra, essa “sustentabilidade” é inalcançável nos dias atuais.
“Muito difícil com o atual cenário – aquecimento global, poluição dos oceanos, conflitos entre empresas pesqueiras – é difícil imaginar uma nova moratória de caça sustentável”, disse Leandra.
“Eles dizem [Japão] que a moratória da caça de 82 já recuperou as populações de baleias, o que não é verdade. E dizem que as pobres populações costeiras deles precisam do recurso para sobreviver, o que também não é verdade”, disse José Truda Palazzo, do Instituto Baleia Jubarte e fundador do Projeto Baleia-franca. Ele também acompanha o evento em Florianópolis.
Quais as regras estão previstas, caso seja retomada a caça?
Primeiro, deve haver a votação para a aprovação ou não da da caça comercial de baleias no mundo. Caso mais de 75% dos países sejam a favor, um comitê é formado para determinar quais serão as regras: se espécies em extinção serão preservadas, se será aplicável para todo o planeta, e etc.
Quais países são a favor da liberação da caça comercial das baleias?
Além do Japão, apoiam a proposta a Noruega, a Islândia, Rússia, Coreia do Sul, países do Caribe e da África.
O que pensa o Brasil?
É contra a proposta do Japão, com representantes do Ministério do Meio Ambiente e do Itamaraty. Inclusive, o país apresentou uma proposta para a criação de um Santuário de Baleias do Atlântico Sul que foi rejeitada na manhã desta terça-feira (11) pela Comissão. Foram 39 votos a favor, 25 contra, 3 abstenções e 2 ausentes.
O Santuário seria um território de proteção desses animais entre os continentes americano e africano, onde a caça seria totalmente proibida – inclusive a científica. Desde 2001, o Brasil apresenta essa proposta no encontro da comissão e sempre consegue maioria simples, mas para ser aprovada, precisa de 75% dos votos.
Qual é a opinião dos ambientalistas?
“Esta proibição tem que continuar por várias razões”, disse Truda.
“A primeira delas é que a maioria das populaçãoes das espécies de grandes baleias ainda não se recuperou. A segunda é que elas valem muito mais vivas do que mortas. Elas geram em torno de 2 bilhões de dólares por ano no turismo de observações de baleia, mas estudos também mostram que elas são verdadeiras fertilizadoras dos oceanos”.