Alterei minha rotina ontem (26) para ir a São Paulo, a convite do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, participar da Conferência que também foi comemorativa dos 20 anos da organização. Explico o convite: o caderno “Razão Social”, que circulou encartado no jornal “O Globo” durante nove anos, o qual eu editei da primeira à última edição, nasceu, em parte, instigado pela forma como as empresas associadas ao Ethos vinham sendo chamadas para agir na sociedade. Esperava-se delas um comportamento mais ativo, também como cidadãs, e para isso era preciso fornecer subsídios, informações, criar indicadores, publicações que dialogassem com as corporações.
O Ethos foi criado em 1998, um ano depois de o sociólogo Betinho, irmão do Henfil – personagem de peso na história do país que começava a sair de anos de um regime militar e acordava para a possibilidade de viver democraticamente – ter escrito um artigo histórico, convocando a porção cidadã das empresas. E o Insituto foi criado por empresários, o que facilitava muito as coisas para que as grandes corporações dialogassem com o movimento, chamado de responsabilidade social corporativa. O “Razão Social” foi criado cinco anos depois, em 2003, trilhando um caminho paralelo, trazendo o debate, a reflexão, para a grande mídia.
Por isso fui convidada, e fiquei feliz com o convite. É bom fazer parte da história de um movimento, junto com outros tantos colegas da imprensa que também estavam lá e estiveram lá durante grande parte deste caminho. Nos nove anos em que estive à frente do “Razão Social” fui a todas as conferências do Ethos, à época anuais. E o momento mais esperado, para nós jornalistas que cobriam o evento, era do posicionamento da entidade, um manifesto assinado por todas as empresas associadas – entre elas muitas corporações de peso, multinacionais – sobre o momento político. Não foi diferente desta vez.
No manifesto lido pelo presidente atual do Ethos, Caio Magri, as cerca de 500 empresas associadas se colocam responsáveis. Para elas, “O ano de 2018 poderá passar para a história do Brasil como aquele em que as lideranças da sociedade civil e do setor empresarial não conseguiram construir um consenso capaz de enfrentar as escandalosas desigualdades e defender uma democracia verdadeira em seus valores e princípios”. E cobram dos políticos e dos candidatos que se inscrevem nas campanhas eleitorais, o fato de o desenvolvimento sustentável estar praticamente ausente do debate. Vimos refletindo sobre isto aqui neste espaço.
“Falou-se apenas no crescimento econômico em si, como se fosse a solução para todos os problemas nacionais. Tivemos crescimento econômico por um período, mas constatamos que as imensas desigualdades permanecem. Por exemplo, as mulheres ganham menos e ocupam a maioria dos empregos vulneráveis. Os jovens enfrentam restrições para o acesso a um posto de trabalho precário e convivem com taxas de desemprego três vezes superiores às dos adultos. Agora, o crescimento econômico está anêmico, com baixo investimento privado, escassez de demanda e desigualdade crescente de renda e riqueza”, diz o manifesto.
Não são palavras ao vento. Mas a questão é que há, no mundo corporativo mesmo, muitos pares que andam por um caminho oposto ao desta preocupação. Temos visto isto nas notícias que dão conta de uma relação corrupta entre políticos e donos de empresas para conseguir benefícios para alguns sem pensar no resto da sociedade. Aquelas que pensam e agem diferente têm que vir à tona mesmo, iluminar os caminhos dos corredores escuros, onde malas de dinheiro vão e voltam, para não naturalizar este comportamento. Só com transparência – esta palavra que, infelizmente, se vulgarizou – vão ganhar a credibilidade da opinião pública.
Quando busquei na memória a história do movimento de responsabilidade social e do papel do Instituto Ethos para contar ao público, dois instantes ficaram muito claros para mim. O primeiro é como ainda há temas sensíveis à população que as próprias corporações engajadas não conseguem se livrar deles. Estavam presentes, em várias mesas de debate na Conferência de 2018, ainda a questão do trabalho escravo, da igualdade de gênero nas empresas, do uso abusivo do agrotóxico, combate à corrupção.
Num segundo momento, me dei conta de alguma nostalgia ao perceber a mudança do cenário, do qual eu participei ativamente por quase uma década. Entraram dispositivos, mais e mais qualificados para agilizar a vida dos empresários. Os palcos, que no passado tinham um aspecto de sala de estar, ganharam uma iluminação futurista. Os debates acontecem todos ao mesmo tempo no mesmo lugar e, para isso, um pequeno dispositivo nos deixa com a possibilidade de estar refletindo sobre um tema e, no meio tempo, mudar de canal e ouvir o que está sendo discutido no ambiente contíguo.
A Conferência do Ethos, assim, acompanha o que há de mais moderno em nossas comunicações: a multiplicidade de informações. Venho de uma década atrás, estou atualizada, gostei do dispositivo. E senti falta dos livros que se vendia numa banca à entrada do restaurante, muitos da minha biblioteca vieram de lá.
Por um equívoco na hora de emitirem meu bilhete, perdi a primeira plenária, onde Caio Magri leu o manifesto em que o setor empresarial brasileiro representado ali se pergunta o que esperar de um desenvolvimento sustentável. Nos corredores, encontrei colegas que me sinalizaram para um tom forte, de diversidade, que a Conferência deste ano imprimiu aos debates. A própria organização, sempre criticada pela falta de mulheres na diretoria, já sanou, em parte, a questão. Outro momento forte do encontro foi o debate, novo, sobre o armazenamento de um grande volume de dados – big data – que precisam ser analisados e transformados em informações úteis para o negócio, por mãos conscientes, bem informadas e capacitadas. É o futuro, presente.
Foi bom ter ido, embora o trânsito de São Paulo tenha me obrigado a sair mais cedo do que eu gostaria. E foi bom, também, fazer contato com a face atualizada, dinâmica, de um movimento que começou orgânico. Lembro-me bem da hora do almoço das Conferências Ethos, onde em mesas redondas sentávamos todos, público, palestrantes, diretoria da organização, e dali saíam reflexões que nos alimentava, talvez até mais do que a comida servida.
A palavra é contato. As máquinas, a tecnologia, a multiplicidade de informações, têm o poder de nos distanciar, ao mesmo tempo que nos ligam a diversos lugares ao mesmo tempo. E é o único jeito de trazer para a barca de debates os novos personagens, crescidos desta forma. Que eles possam também ser convidados para um almoço em mesa redonda com reflexões trazidas por autores diversos que se dedicam a pensar e indicar soluções e vários caminhos.
De qualquer jeito, quando comecei a editar o “Razão Social”, a palavra sustentabilidade nem cabia nos títulos. Desenvolvimento sustentável era algo a ser aprendido. Hoje já se tem informações. E ainda caminhamos para torná-las a prática que se quer.
Amélia Gonzalez
Arte/G1
Empresas lançam manifesto pela democracia na Conferência Ethos




