Ali na esquina tem uma carrocinha que diz: “salgados árabes”. Passando com pressa e um pouco de fome, parei para comprar algo, pensei numa esfiha de queijo. Não tenho o hábito de comer na rua, e aquela carrocinha me lembrou de uma reportagem que fiz há três anos, onde contei a história dos refugiados sírios, jovens, que chegavam a São Paulo, viajavam para o Rio e, depois de algum tempo, conseguiam sobreviver vendendo comida árabe na rua. Lembro-me bem: quando fiz a reportagem eu comi um salgado deles e estava bem feito e gostoso.
Pode ser que me engane, mas tenho a sensação de que os dois – Ebrahemm e Abd – abriram as porteiras para que brasileiros, na crise em que nos encontramos, tirassem um pouco de proveito da iniciativa. Hoje, talvez, a gente encontre mais carrocinhas vendendo comidas árabes do que, efetivamente, refugiados sírios pelas ruas da cidade.
E, como tudo que cresce sem planejamento… não deu muito certo. O salgado que comi naquela esquina estava ruim, mal feito, com gosto de óleo velho. Joguei fora. O negócio, agora, não tem o cuidado que os meninos tiveram para tentar angariar fundos e viver aqui no Brasil. Fico me perguntando o que terá acontecido com Ebraheem e Adb? Leio uma reportagem no “El País” dando conta de muitos sírios que estão voltando para seu país em busca de algo que não conseguiram encontrar na Líbia. Terá sido este o destino daqueles jovens vendedores de salgados?
Não foi uma boa experiência gastronômica, mas me abriu a chance de reflexões a respeito das migrações, a maior crise humanitária que o mundo está vivendo desde a II Guerra. É só fazer uma busca na internet, que não tardarão a surgir reportagens sobre tragédias envolvendo a travessia de povos inteiros que fogem, seja de ditadores insanos, seja de eventos extremos causados por um clima que não lhes dá mais chance de sobreviver em seu território.
Os últimos dados mundiais da Acnur, agência da ONU que cuida dos refugiados, dão conta de que 68,5 milhões de pessoas se deslocaram à força no ano passado. Pouco mais da metade – 57% – vêm de três países: Sudão do Sul, Afeganistão e Síria. E a grande maioria, 85% das pessoas que buscam refúgio em outros lugares, vem de países pobres. Somente no Mar Mediterrâneo, desde o início deste ano, 1.700 pessoas morreram durante a travessia para fugir de seu território e alcançar outro, com esperança de que ali terão mais chance de sobreviver.
Faz todo o sentido, diante do cenário de declarações políticas tão polarizadas que se percebe nos líderes mundiais, a preocupação dos funcionários da Acnur e da Organização Internacional para Migrações (OIM). Em entrevista na semana passada, eles pediram que tais líderes não transformem as pessoas em ganhos políticos.
“O atual teor do debate político – pintar a imagem de uma Europa sob ataque – não é apenas inútil, como é completamente fora da realidade. Os números de chegada estão caindo, mas as taxas de pessoas que perdem suas vidas estão aumentando. Não podemos nos esquecer de que estamos falando sobre vidas humanas. O debate é bem-vindo, todavia, utilizar refugiados e migrantes para ganhos políticos não”, disse o Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, pedindo às lideranças europeias que tomem medidas urgentes e efetivas contra a mortandade de pessoas no Mediterrâneo.
Fato é que a crescente onda de refugiados e imigrantes divide opiniões, é mais um ingrediente para a polarização que estamos vivendo no nosso dia a dia. Yuval Noah Harari , o historiador de “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, acaba de lançar “21 lições para o século XXI”, editado aqui pela Companhia das Letras, onde se dedica ao tema de maneira ampla, entendendo que “essa discussão quase sempre degenera numa gritaria na qual nenhum dos lados ouve o outro”. O comentário corrobora a preocupação dos funcionários que lidam diariamente com a questão: aos poucos, o lado humano, os cuidados que é preciso ter com mulheres, homens, crianças que estão arriscando a vida em busca de empregos, segurança e um futuro melhor, vai sendo deixado de lado para dar lugar à retórica política.
Assim sendo, Yuval destrincha o caso e tenta esclarecer, considerando três termos que estão presentes na discussão. No primeiro termo, o país anfitrião permite a entrada de imigrantes; no segundo, em troca, os imigrantes têm de adotar as normas e os valores do país anfitrião “mesmo que isso signifique abrir mão de alguns de seus valores e normas tradicionais”. O terceiro termo: se os imigrantes conseguirem assimilar a cultura do país anfitrião num grau suficiente, com o tempo tudo se ajeita e “Eles” passam a ser “Nós”.
O historiador avisa que tem mais perguntas do que respostas sobre o tema, e embasa suas reflexões nas dúvidas, o que por um lado frustra quem quer pular etapas e, por outro, alimenta a única coisa possível neste momento: a reflexão. Estamos divididos entre os pró-imigracionistas e os anti-imigracionistas, e cada um desses grupos tem lá suas razões.
O certo é que é impossível deter a onda de imigrações e, “não importa quantos muros e quantas cercas forem construídos, pessoas desesperadas sempre acharão um meio de atravessá-los”.
Mas há os truculentos, anti-imigracionistas que apostam na força para estagnar a vontade de outros virem ao seu país pedir ajuda, já que, segundo eles, “um dos direitos mais básicos de todo o coletivo humano é se defender contra uma invasão, seja sob a forma de exércitos, seja de imigrantes”.
“O que complica a questão é que em muitos casos as pessoas querem tudo ao mesmo tempo”, escreve Yuval. E numerosos países estão fazendo vista grossa para a entrada de estrangeiros em suas terras, com a intenção de se beneficiar de seu talento e seu trabalho barato. Para depois, se negar a legalizar o status dessas pessoas, dizendo que não querem imigração.
“A longo prazo, isso poderá criar sociedades hierárquicas nas quais uma classe superior de cidadãos integrais explora uma subclasse de estrangeiros impotentes, como acontece hoje no Qatar e em vários outros Estados do Golfo”, conta Yuval.
Eis o ponto. Fecho este texto com uma reflexão profunda de Yuval, que deveria estar na mesa de cabeceira de cada um de nós. O historiador destaca a distorção no fato de 500 milhões de europeus não conseguirem absorver uns poucos milhões de refugiados empobrecidos. E se pergunta:
“Seria uma pena se o experimento europeu de liberdade e tolerância se desmantelasse devido ao medo exagerado do terrorismo. Isso não só realizaria os objetivos dos próprios terroristas como também daria a esse punhado de fanáticos uma voz forte demais na determinação do futuro do gênero humano. O terrorismo é a arma de um segmento marginal e fraco da humanidade. Como ele veio a dominar a política global?”.
Amélia Gonzalez
Arte/G1