Como somos afetados por tanto tempo usando aparelhos eletrônicos e recebendo informação?
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A ideia de entrevistar o homeopata Mauricio Tatar surgiu a partir das minhas reflexões sobre qualidade de vida dentro do conceito de sustentabilidade. Por força de ofício, passo a maior parte do meu tempo olhando para telas com luz artificial e recebendo informações de todo o tipo, de todos os lugares do mundo, e este virou, praticamente, um padrão entre nós. Fico impressionada com a quantidade de pessoas que vejo, no Metrô, no ônibus, nas ruas, de cara enfiada no celular que, hoje em dia, já não é mais só telefone, como se sabe, e sim um computador de bolso. Será mesmo preciso tudo isso?
Que o excesso de informações e de exposição a telas causam impacto sobre o organismo humano já é um assunto de largas reflexões. Aqui mesmo, neste espaço, dividi com vocês a leitura do livro do sul-coreano Byung-Chul Han, “No Enxame”, onde o autor lembra que a “atrofia das mãos” será uma característica da sociedade do touch screen.
Meu interesse agora foi ouvir alguém que conhece o corpo e suas reações sobre o que se processa em nosso metabolismo tanta exposição aos aparelhos eletroeletrônicos. E a tanta notícia. Não há de ser pequeno o incômodo quando se abre a tela e se recebe relatos de mortes, tragédias, desmandos na política nacional e internacional. Na semana passada, por exemplo, mal digeríamos a história do incêndio no Ninho do Urubu, recebemos a notícia da morte trágica do jornalista Ricardo Boechat, com quem convivi anos na redação do Globo. E tem sido assim. Tem gente já querendo antecipar o calendário. Que venha 2020, porque 2019 …
Mauricio Tatar me surpreendeu já no início da conversa. Segundo ele, o problema não está na quantidade de informações que recebemos, como eu imaginara. O nosso corpo recebe dados aos montes, o tempo todo, desde sempre: é só andar na rua. Cheiros, cores, sons, tudo isso são informações que o cérebro recebe e processa. O que temos que fazer é escolher com quais delas vamos fazer contato, em nome da saúde. Precisamos mesmo só ler ou ouvir sobre tragédias, violências e corrupções?
A novidade da atualidade, e isto sim preocupa o médico, são as telas e suas luzes intensas, que podem causar desde insônia ao câncer. Minha conversa com Tatar rendeu subsídios para muitas reflexões, o que me agrada compartilhar com os leitores. Segue abaixo:
Como nosso corpo processa o volume de informações que a gente recebe diariamente?
Mauricio Tatar – Informações nós sempre recebemos, e em quantidade. O que você deve estar questionando é sobre a qualidade dessas informações.
Sim, e da rapidez com que elas chegam até nós.
Mauricio Tatar – O tempo todo estamos recebendo informações, é só andar na rua: cheiros, sons, cores. O corpo humano é harmônico, ele tem bilhões de reações químicas que acontecem a todo instante de uma forma super organizada com um único objetivo: nos manter vivos. E ele vai sempre buscar o caminho da cura, mesmo sem remédios. Então, a qualidade dessas informações que recebemos é muito importante para a nossa saúde. Se a pessoa estiver na frequência da violência o tempo todo, isso interfere no metabolismo e pode causar insônia, enxaqueca, dores, problemas musculares, até câncer. Porque este padrão é desarmônico.
A maioria das pessoas que entra no seu consultório tem esses sintomas?
Mauricio Tatar – A grande maioria que chega aqui no consultório vem com uma história de dor. E alterações metabólicas, como prisão de ventre, problemas estomacais. Eu procuro olhar o que há por trás dessas queixas. Na maioria das vezes, é medo. Vivemos numa sociedade do medo. E temos uma profusão de poluições, não só a do ar, das águas, mas também a eletromagnética.
Você quer dizer, a dos aparelhos que usamos?
Mauricio Tatar – Esses aparelhos todos, do celular ao microondas, que são coisas da modernidade, estão adoecendo muito as pessoas. Sim, estamos vivendo mais tempo, mas com que qualidade de vida? O câncer vai ultrapassar as doenças cardiovasculares em causa mortis, a depressão hoje é um dos principais fatores de afastamento do trabalho… Isso tudo porque a gente tem se isolado, se afastado da natureza, ficando mais horas na frente dos aparelhos.
Quais os sintomas que o uso contínuo desses aparelhos pode causar?
Mauricio Tatar – A luz que essas telas emitem é de alta intensidade e nós temos hormônios que só são produzidos no escuro – como a melatonina – e outros que só são produzidos no claro. Muitas pessoas chegam a ir para a cama, na hora de dormir, e põem o celular ao lado, usam como despertador. Os olhos continuam recebendo a luminosidade e, por conta disso, a informação que o corpo está recebendo é de que ainda está de dia. Ou seja: vai deixar de produzir a melatonina, que é muito importante não só para a qualidade de seu sono, mas para sua longevidade, para sua saúde.
E a televisão no quarto?
Mauricio Tatar – Por mais que se desligue o aparelho, aquela luzinha vermelha do controle remoto fica acesa. Dessa forma, além de as pessoas estarem dormindo pouco, a qualidade de sono não é boa. E acabam apelando para os remédios, os benzodiazepínicos – cujas marcas mais conhecidas são Rivotril, Lexotan…- porque não conseguem dormir sem medicação. Até crianças já estão usando esses medicamentos para dormir. Na realidade, é o seguinte: nós precisamos dormir no breu, não se pode ter aparelhos eletroeletrônicos no quarto e não tem nada, absolutamente nada, que substitua o sono da noite para deixar nosso corpo mais saudável.
Mas tem muita gente que tem filho adolescente, por exemplo, e precisa dormir ao lado do celular para ter notícias…
Mauricio Tatar – Essas pessoas estão na frequência do medo. Tem que pensar melhor, saber que ninguém tem controle sobre o outro, nem mesmo sendo jovens. É preciso dar limites, de horários, de companhias. E… bem, você se lembra da expressão “notícia ruim a gente chega rápido?” Pois é. Uma mãe conectada com o filho vai sentir se acontecer alguma coisa com ele.
O que está faltando para termos mais qualidade de vida sem precisar de tantos medicamentos?
Mauricio Tatar – O que está faltando para nós é o maior contato com a natureza. As pessoas precisam também ter mais amor próprio, saber que ninguém é melhor do que ninguém, e entender que estar vivo é um milagre. Ao acordar, ao abrir os olhos, tem que estar grato. É preciso que a gente se encontre mais, pessoalmente, em vez de se falar somente com auxílios dos dispositivos. Precisamos saber que na natureza nada acontece de repente e que nosso corpo não está preparado para ficar ligado 24 horas. Precisamos de pausas: para alimentação, para a respiração, para beber água, se espreguiçar. Pausa para namorar. Sem isso, como fica teu humor?
Como você imagina que esta sociedade, que vive hoje sob o signo do medo e cercada de reações eletromagnéticas que podem lhe fazer mal, vai ser no futuro?
Mauricio Tatar – Penso que haverá menos gente porque muitos não sobreviverão às questões climáticas. Ao mesmo tempo viveremos mais, tipo 200 anos, e as máquinas vão substituir o trabalho como se conhece hoje. Daí que vamos encontrar outras funções na vida. Talvez volte o escambo, não sei…
Quando vejo uma criança com 10 anos de idade, já deprimida, penso: “que mundo é este?”. E acredito, pelas coisas que leio e estudo, que a sociedade do futuro, primeiro, não vai ter tanta gente, por questões climáticas muitos vão morrer.
Amélia Gonzalez
Arte/G1
‘Vivemos numa sociedade do medo’, diz homeopata em entrevista sobre qualidade de vida




