Um menino, cuja família foi obrigada a deixar Deir al-Zor e seus arredores, caminha pela lama de um campo de refugiados perto de al-Arishah, na província de Hasaka, na Síria
Delil Souleiman/AFP
A foto do salvadorenho Óscar Alberto Martínez Ramírez, de 25 anos, e sua filha Valeria, de um ano e 11 meses, que morreram no rio quando tentavam chegar aos Estados Unidos causa tristeza, indignação, compaixão na maioria das pessoas.
Mas o que realmente seria preciso, diante de tudo o que estamos vivendo e para tentar ir solucionando – assim mesmo, no gerúndio – a questão dos quase 71 milhões de pessoas que tentam se refugiar em outro país que não o de seu nascimento (dados do último relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados – Acnur), é a solidariedade. E este é um sentimento que está cada vez mais difícil de evocar num sistema econômico que precisa do acúmulo e da meritocracia para se manter.
Essa não é uma conclusão óbvia, nem mesmo a única raiz dos problemas das migrações, mas foi um dos pensamentos que me ocupou quando assisti, ontem pela manhã, a Conferência de abertura do seminário “Hospitalidade – entre ética, política & estética”, promovido pela Casa de Rui Barbosa e a Embaixada da França. A conferencista, a francesa Catherine Wihtol de Wenden, há trinta anos pesquisa sobre as migrações internacionais e trabalhou como perita para o Acnur. E brindou as pessoas que estavam no auditório, quase lotado, da Casa de Ruy Barbosa (em Botafogo, Rio de Janeiro), onde acontece o Seminário, com perspectivas diferentes sobre o problema.
Catherine se pergunta, por exemplo, se realmente podemos chamar de “crise migratória” um fenômeno que nem tão novo assim é.
Não seria uma crise de hospitalidade, que foi sendo alimentada depois da queda do Muro de Berlim (1989)? Daquele momento em diante, os jornais começaram a dar voz a autoridades que alertavam para uma espécie de “concorrência insustentável” no Leste Europeu. Havia um medo no ar, de que os benefícios sociais não fossem suficientes para todos.
“A crise não é de refugiados, mas da recepção dos refugiados”, alerta Catherine.
Quando se fecha fronteiras com arames farpados e um país vizinho está passando por uma situação caótica, o que se espera que vá acontecer? Foi assim em 2011, quando o então presidente francês Nicholas Sarkozy e o então primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi pediram uma revisão do Tratado de Schengen, o acordo que diz que as fronteiras só serão fechadas, entre os 26 países signatários (Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Eslovênia, Eslováquia, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Itália, Islândia,Letônia, Lituânia, Liechtenstein, Malta, Noruega, Luxemburgo, Polônia, Portugal,República Tcheca, Suécia e Suíça), em caso excepcional.
“Pessoas foram processadas, na ocasião, por oferecerem hospitalidade aos refugiados”, conta Catherine, o que reforça a tese de que a crise foi, muito mais, de hospitalidade.
Família de refugiados paquistaneses cristãos em seu apartamento em um subúrbio em Bancoc, na Tailândia
Aidan Jones/AFP
Em 2015, a morte do menino sírio Alan Kurdi, estampada numa foto tão chocante quanto a atual, do pai com a filha, chocou a consciência dos europeus. E, naquele instante, ajudou a refletir sobre o acordo de Schengen. Mas, ainda assim, outros países puseram arames farpados em suas fronteiras, como Turquia, Hungria, Bulgária, burlando o Acordo.
“Não foi uma crise grande para a França. A crise da Síria teve um pequeno impacto na Europa, mas sempre deu outra impressão para o mundo. É a forma de administrar, é a vontade de passar a seguinte mensagem: ‘Quanto pior nós os recebemos, menos eles virão’”, disse Catherine.
O que querem os refugiados, no fim e ao cabo? Não é sopa quente, afirma a pesquisadora. Eles estão em busca de redes de pessoas que falem uma língua parecida – isto se confirma no caso dos sírios, que prioritariamente optam por Alemanha e Suécia. E mais: a acolhida aos refugiados cria empregos.
“Os fundos que são formados para acolher essas pessoas, dar soluções, precisam de gente administrá-los, para criar tais respostas. Assim, muitos acharam emprego com essa acolhida, graças ao que chamamos de crise”, disse a conferencista.
Desta forma, na verdade, em vez de serem vítimas da migração, muitos países europeus estariam enriquecendo com o fenômeno. Mas, é claro, há um paradoxo. A polarização fica entre dar segurança aos cidadãos do país e, em tese, preservar a cultura e, por outro lado, ter um liberalismo econômico.
“Mas esta contradição não é assumida”, afirma Catherine.
Enquanto isso, há uma produção de uma (falsa) crise identitária e econômica. Não seria tudo mais facilmente resolvido se deixassem as pessoas destrincharem a questão por si?
Vivemos numa era de paradoxos, e um deles é esta ambivalência. Se, por um lado, facilitados pela internet e pelo mercado, vivemos num mundo sem fronteiras, por outro, na vida real, muros e arames farpados separam as pessoas, cercam-lhes os desejos, encarceram-lhes o legítimo movimento de fugir de ditadores sanguinários, de secas ou tempestades que lhes tiram a possibilidade de plantar e colher.
O Seminário continuou na parte da tarde e só termina hoje, portanto há tempo ainda de participar dele. É de graça e oportuno, ajuda a refletir sobre o momento que estamos vivendo.
Cheguei em casa e, por coincidência, recebi por e-mail um texto escrito no mês passado – portanto antes da foto chocante que abalou o mundo com a qual eu abro este texto – pelo professor e sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. O título me pegou de surpresa, justamente porque deixa claro a ambiguidade a que se refere Catherine Wenden: “Um mundo sem fronteiras?”.
“Vivemos num mundo de abolição de fronteiras ou num tempo de construção de fronteiras?”, pergunta-se ele, para depois lembrar que esta imprecisão não é, como pode parecer, fenômeno de nossa era.
“Desde o Renascimento do século XV até ao Iluminismo do século XVIII vai-se afirmando a universalidade sem fronteiras da humanidade e do conhecimento, ao mesmo tempo que se vão vincando as fronteiras entre civilizados e selvagens, entre colonizadores e colonizados, entre livres e escravos, entre homens e mulheres, entre brancos e negros”.
Boaventura Santos descreve ainda os campos de refugiados, que chama de “campos de concentração dos novos presos políticos do nosso tempo, os presos políticos do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado, populações consideradas descartáveis ou sobrantes para estas três formas de dominação moderna que hoje parecem mais agressivas que nunca”. Para ele, as fronteiras são “as feridas incuráveis e expostas de um mundo sem fronteiras”.
Refugiados chegam em barco lotado; foto da exposição “Faces do Refúgio”
ACNUR/ Divulgação
Há esperança? Sim, porque Boaventura Santos aposta nos jovens que hoje vão às ruas para se rebelarem contra o sistema. Que eles consigam explorar meios meios legais e ilegais de libertar os refugiados destas infames prisões.
Catherine, por sua vez, dispara o alerta: a crise é produzida.
Sigamos refletindo, amealhando boas informações que nos possam sugerir outras visões de um momento histórico tão sensível quanto o que estamos vivendo.
Outra visão sobre a crise dos refugiados




