No centro de Istambul, a polícia impede a parada gay de prosseguir
Murad Sezer/Reuters
A sugestão é esquecer, pelo menos durante a leitura deste texto, a velha prática do pensamento binário. Sei que estamos vivendo tempos difíceis, talvez impróprios para este tipo de exercício, mas é fundamental, encare como um desafio. Refletir sem pensar em bom e mau, em certo ou errado, é, talvez hoje, sobretudo para nós brasileiros, um desafio e tanto.
Vamos lá.
Sexta-feira (28) estive, a convite, assistindo a uma palestra para funcionários de um escritório de advocacia no Centro do Rio. A palestra, não por acaso, ocorreu no exato momento em que se comemoravam os 50 anos do Levante de Stonewall.
Para quem não está familiarizado com o acontecimento, explico: o nome foi dado a uma série de rebeliões espontâneas da comunidade gay que começaram no dia 28 de junho de 1969 num bar chamado Stonewall Inn, que fica em Nova York. As manifestações começaram por causa da maneira truculenta, violenta, com que os policias nova-iorquinos costumavam tratar os gays, invadindo os espaços que eles ocupavam. Naquela noite, diferentemente do que sempre acontecia, houve revide.
E na noite seguinte, na seguinte, na seguinte. Na sequência dos acontecimentos, em seis meses duas associações de gays foram fundadas e, no ano seguinte, no mesmo dia 28 de junho, aconteceu a primeira Marcha do Orgulho Gay, que hoje é um fenômeno mundial e atrai milhões de pessoas em todo o mundo.
O Stonewall Inn, bar onde tudo começou, ainda existe, virou um monumento nacional.
Mas a causa LGBTQI+ está longe de ser uma causa ganha. Há ainda muito preconceito e a luta pelo reconhecimento e pela liberdade para ser o que se quer, em alguns momentos, parece tão necessária que a impressão que se tem é que estamos regredindo em vez de avançando no tempo e no respeito ao outro.
E por isto eu estava ali, assistindo a palestra do transexual Erick Witzel para os colaboradores do Escritório Cavalcante Ramos Advogados. A ideia de um dos sócios, o advogado Marcelo Nogueira, é aprimorar o respeito que o espaço já demonstra ter pelos transexuais e cuidar ainda mais do respeito às diferenças, até no sentido de abrir portas, de preencher vagas.
Daí a proposta de promover tais encontros para facilitar o relacionamento entre todos e de adaptar fisicamente o escritório.
Integrantes do grupo de idosos “Golden Gays” de Manila, nas Filipinas
Eloisa Lopez/Reuters
Mas, diante de tantas adversidades e de tanto pensamento binário no mundo, a pergunta procede: como tratar um transgênero? Como não constranger a pessoa com perguntas capciosas? Como não transformá-la numa espécie de “animal no Zoo”? É preciso abandonar o preconceito e, para isso, o melhor caminho é estar informado, e bem informado.
“Entre a mulher e o homem existe o transgênero, aquele que não vive de acordo com o gênero que foi identificado para ele no nascimento. Quando nasci, identificaram-me como mulher. Fiz a transição. E tenho pavor de ser confundido com homem. Sou transgênero e estou muito feliz assim”, conta Erick Witzel.
Erick fez a cirurgia para retirar os seios, mas alerta para o fato de que nem todos os transgêneros o fazem. Portanto, a pergunta – “Você fez a cirurgia”? – soa como uma espécie de invasão à identidade. E foi este o mote da palestra, sobre a invasão à privacidade e a necessidade de se cultivar o respeito pelo outro, sem que este outro tenha que se explicar o tempo todo por ser isto ou aquilo.
Erick Witzel
Reprodução/Instagram
Erick Witzel entende bem de invasão à privacidade, viveu (vive) isto na pele por ser filho do atual governador do Estado do Rio, Wilson Witzel. Quando o pai esteve em campanha, e assim que ganhou, Erick foi intensamente alvo de notícias em sites, jornais e revistas.
“A expressão de gênero é a forma como você demonstra seu gênero. Tem o feminino, o andrógeno e o macho. Não se consegue identificar de cara o andrógeno. Eu sou assim. Se eu quiser sair de saia na rua eu vou sair”, disse ele para a plateia, composta de mais de 40 pessoas, entre colaboradores, amigos e funcionários.
Erick Witzel não poupou, durante a hora e meia que falou, de dar informações, atualizar dados sobre questões de gênero. E os dados são vergonhosos para o Brasil, país que mais mata pessoas transgênero no mundo todo. Dos estados brasileiros, Ceará está na ponta desta triste estatística, seguido do Rio de Janeiro.
“Aqui também é alta a taxa de suicídios – 85,7% – de transexuais. Mas sabem o que é o maior paradoxo? É que o Brasil também é o país que mais acessa conteúdo pornográfico transexual na internet em todo o mundo ”, diz Erick Witzel.
Erick aplaude a iniciativa dos advogados que o convidaram para falar sobre um assunto tão delicado a pessoas que estavam ali, francamente, sedentas de boas informações.
Segundo ele, que se formou em Gastronomia há quatro anos e trabalha em restaurantes há oito, sua vida teria sido muito mais fácil se, nas empresas onde trabalhou, tivessem tido este cuidado. Foi difícil porque, no mercado de trabalho, o preconceito ainda é mais acelerado do que no dia a dia.
Mas há uma tendência de ligeira melhora em tais condições, parte porque as grandes empresas já estão se preocupando. O motivo desta entrada em cena – que vem acontecendo já há algum tempo – das corporações no sentido de buscar respeitar o jeito de ser de qualquer cidadão, é simples: elas precisam disso para não perderem clientes .
As 500 empresas multinacionais privadas têm 52% do PIB do mundo (todos os setores reunidos, bancos, serviços e empresas), ou seja, mais dos que os países. E, segundo o relator especial da ONU Jean Ziegler, em entrevista ao site “OutrasMídias” , “elas monopolizam um poder econômico-financeiro, ideológico e político que jamais um imperador ou papa teve na história da humanidade”. Sendo assim, trabalham também para evitar erros que possam rebaixar sua zona de conforto no mercado financeiro.
De marcas de cosméticos que precisaram se abrir para retratar mulheres comuns em seus anúncios de propaganda às cervejarias que precisam pensar num jeito menos machista para oferecer seus produtos, todas as marcas precisam respeitar a diversidade.
É um caminho longo num mundo que privilegia a cultura à natura.
Foi preciso uma revolução num bar nova-iorquino, há meio século, para dar início às reflexões que agora começam a ser debatidas mais abertamente, até porque só no ano passado é que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a transexualidade da lista de transtornos mentais da Classificação Internacional de Doenças (CID).
Nas 17 metas listadas pelas Nações Unidas para se alcançar um Desenvolvimento Sustentável em 2030 (ODS), já aparece a preocupação com o estigma de gênero mas, ao menos por enquanto, só as mulheres são lembradas. O Objetivo número 5 é “Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas”.
Merece uma revisão, para incluir o respeito a todos os gêneros, mas para que isto ocorra é preciso, como eu sugeri ao leitor no início do texto, que se pare de ver o mundo apenas sob dois pontos de vista. Há muitos outros.
Ainda é longo o caminho para se conseguir respeito a todos os gêneros humanos




