Greta Thunberg, de 15 anos, protesta em frente ao Parlamento da Suécia com o cartaz: ‘Greve das escolas pelo clima’
TT News Agency/Hanna Franzen via Reuters
Recebi pelas redes sociais, na semana que se acaba, um farto material de convocação para a greve mundial por justiça climática, de 20 a 27 de setembro. O convite está sendo feito por diversas organizações e a greve há de ter sido inspirada no movimento começado pela estudante sueca Greta Thunberg, de 16 anos, uma voz jovem que se levantou no ano passado, quando se colocou de pé, junto a um cartaz em frente ao Parlamento de seu país, onde dizia que estava em greve pelo clima.
Pais, acadêmicos, sindicatos, celebridades de forma em geral, fazendeiros e doutores estão se juntando ao movimento mundial. Um site foi criado, onde são oferecidos banners, palavras de ordem, textos prontos para a hora do embate nas ruas.
O principal mote é o fim do uso dos combustíveis fósseis. A maior exigência é que as empresas parem de fazer negócios como sempre, e passem a ter um olhar mais cuidadoso com o entorno, com o meio ambiente.
Os jovens, pontas de lança da greve, estão muito preocupados, legitimamente, porque a fatura de tantos gastos que se têm feito até aqui vai ter que ser paga por eles, que terão uma qualidade de vida muito inferior à atual. E olhe que já estamos sofrendo os horrores dos eventos extremos – seca e tempestades e furacões. Mais de 250 mil pessoas vão morrer disso até 2050, segundo previsões lançadas num estudo publicado no início deste ano. E 100 milhões serão rebaixados para a pobreza extrema.
Sendo assim, um movimento para chamar a atenção sobre o tema e provocar mudanças é mais do que bem vindo. Eu, no entanto, não estou otimista com relação ao sucesso da empreitada aqui no Brasil.
Aquecimento global pode estar contribuindo para a elevação do nível dos oceanos mais rápido do que se imaginava
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Há países, e o nosso é um deles, onde a questão do clima ainda é vista com reservas. Aqui o “business as usual” é muito bem-vindo.
Ainda estamos em tempo de debater, a nível ministerial, se o uso de agrotóxicos é, verdadeiramente, um mal para a saúde de quem consome produtos que cresceram em terras agrícolas onde o uso dos pesticidas foi largamente permitido.
O presidente Jair Bolsonaro ameaçou até mesmo sair do Acordo de Paris. Voltou atrás, oportunamente, quando precisou do apoio francês ao acordo de livre comércio da União Europeia com o Mercosul. Daí a tomar atitudes reais para baixar as emissões, como prevê o Acordo, que não pune países que não o fizerem, é um passo muito largo. Isto, para dar apenas dois exemplos que põem o Brasil à margem da preocupação com as mudanças do clima.
Sobre a questão dos agrotóxicos paira agora, por aqui, uma discussão de números.
É tempo de debater, a nível ministerial, se o uso de agrotóxicos é, verdadeiramente, um mal para a saúde
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Ontem (11), na Comissão de Meio Ambiente da Câmara de Deputados que tinha como tema principal o PSA (Pagamento por Serviços Ambientais), o chefe da Assessoria de Assuntos Socioambientais do Ministério da Agricultura, Pesca e Pecuária, João Adrien Fernandes, contradisse os dados que mostram o Brasil como o país que mais consome agrotóxicos no mundo.
E, como têm feito os atuais donos do poder executivo, ele também culpou uma “legislação muito rigorosa, em que até fumo de rola é considerado agrotóxico” pela alcunha dada ao Brasil. Sendo assim, é só dar um jeitinho, mudar a legislação, e o problema estará resolvido?
De fato, segundo reportagem publicada na Agência Pública, é possível destrinchar um pouco mais os dados.
Em 2013 o Brasil, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO na sigla em inglês) foi o que mais gastou com agrotóxicos. Mas, em consumo por área cultivada quem ganha é o Japão, assim como em consumo por produção agrícola.
Em termos de volume de agrotóxicos, no entanto, Brasil e Estados Unidos empatam, segundo a professora Larissa Mies Bombardi, professora da Faculdade de Geografia da Universidade de São Paulo. É ela que me dá o tom mais sério dessa discussão, que não deve se ater a porcentagens ou alcunhas.
Segundo Larissa, autora da tese “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com União Europeia”, 30% de todos os agrotóxicos utilizados no Brasil são proibidos na União Europeia. E entre os dez ingredientes ativos mais vendidos no Brasil dois são proibidos na união europeia.
É do que se trata. Se um ingrediente faz mal a seres humanos de determinados países, por que não fará mal a seres humanos de outros determinados países? Esquecem-se os legisladores que, salvaguardas as diferenças de raça, credos, sentidos, somos todos constituídos de vísceras e órgãos?
Bem, mas não é somente sobre o uso abusivo de agrotóxicos que se tratará na manifestação de setembro. Quando os jovens exigem que os negócios passem a ser feitos de maneira diferente do que hoje, o que eles querem é que não se priorize o lucro às pessoas e ao meio ambiente. Mas, de novo, não é a escolha da atual presidência.
Ontem mesmo (11), durante café da manhã com a bancada evangélica, o presidente Jair Bolsonaro disse que quer revisar áreas de proteção ambiental. Para ele, é preciso fazer “o estado prosseguir”, e isto será possível quando muitas áreas forem desmarcadas para permitir a entrada de empresas que possam levar o progresso à região.
A primeira pergunta é: progresso para quem? Se forem excluídas as pessoas mais pobres desse caminho, em pouco tempo os ricos vão descobrir que não terão mais público para consumir seus produtos.
A segunda pergunta é: progresso para quê? Se forem desmatadas e degradadas as terras, em pouco tempo não haverá mais bens naturais para fornecer matérias que possam virar produtos.
Mas tudo isso que descrevi aqui deve valer como combustível para apoiar o movimento dos jovens, ir para as ruas, bradar. Porque, no fim e ao cabo, com menos regulação, se as empresas, que já têm mais capital do que as nações, têm como principal objetivo dar lucro e dependem da sociedade civil para existir, é das corporações que os jovens vão cobrar. E esta relação, que era tripartite, no momento das cobranças pode esquecer um pouco o estado, que tem uma administração atual incompatível com as demandas do movimento, e se tornar bipartite, focando nas empresas.
Se vai dar certo ou não, ninguém sabe. Ao menos, é um caminho diferente do que vem se tentando até aqui.
Jovens convocam greve mundial pelo clima em setembro: qual a participação do Brasil nesse movimento?




