Um dos eventos que mais deixa marcas e denunciará, no futuro, o drama vivido por parte da humanidade em nossa era é o avanço dos oceanos. Por volta de 23% da população mundial, segundo estudos do Greenpeace*, vivem em zonas costeiras, com o triplo da densidade demográfica média global e extremamente vulneráveis às inundações.
Um exemplo vivo e recente deste colapso ambiental está retratado na edição digital de hoje do jornal britânico “The Guardian”. No Golfo de Fonseca, que fica no Pacífico e é parte de Honduras, Nicarágua e El Salvador, um surto de maré tem arrasado vários pequenos negócios à beira do mar nas praias douradas da belíssima localidade turística e residência de pescadores.
Estradas, casas e empresas têm sido eliminadas e os moradores estimam que cerca de um metro do solo vem sendo perdido a cada ano, o que significa que em breve toda a comunidade terá que ser deslocada para não sucumbir sob as águas. O mesmo vem acontecendo nos assentamentos ao longo da costa do Pacífico de Honduras, “onde a terra e seu povo estão desaparecendo rapidamente”.
A região serve para transformar teoria em prática também para exemplificar o que vem sendo dito sem tréguas por pesquisadores e estudiosos que alertam os líderes de nações que adotam o desenvolvimentismo a qualquer custo. Não se trata mais de especulações, mas de rotinas que mostram como a destruição de bens naturais nos conduz a um caminho tortuoso.
No Golfo da Fonseca, que recentemente ganhou até um plano de diretor, assinado pelos três países que o rodeiam, prevendo desenvolvimento para a região, áreas de florestas de mangue foram destruídas para dar lugar a fazendas industriais de camarão que proliferaram mesmo dentro de reservas protegidas.
“A indústria destrói enormes locais de mangue prometendo desenvolvimento, mas na verdade cria muito poucos empregos – e realmente aumenta a pobreza restringindo o acesso à pesca para os moradores”, disse Dina Morel, diretora da Coddeffagolf, uma organização local de conservação marinha.
Assim como o presidente Jair Bolsonaro – e sua equipe que cuida do meio ambiente – está querendo liberar terras conservadas por indígenas para o agronegócio, em nome do “desenvolvimento do país” e no Golfo da Fonseca as fazendas de camarão (locais onde o crustáceo é criado em cativeiro) são aprovadas, recorrentemente, em áreas também protegidas. O interesse econômico norteia as atitudes de quem está no poder, tanto lá, como aqui. As consequências disso são menosprezadas mas podem ser terríveis, a curto prazo para quem ocupa terras no entorno e a longo prazo para toda a humanidade.
O biólogo Victor Bocanegra, ouvido pela reportagem do “The Guardian”, faz um link direto entre a consequência da perda desse ecossistema e a crise das migrações, que têm sido recorrentemente o foco da atenção em nossa era.
“Vulnerabilidade ambiental, insegurança alimentar, pobreza e decomposição social levam à migração forçada”, diz ele.
Os manguezais são essenciais para que os litorais prossigam sendo saudáveis e resistentes. As árvores robustas protegem as costas das tempestades e inundações e ajudam a evitar a erosão, estabilizando os sedimentos com suas raízes entrelaçadas.
Além disso, são fatores-chave na biodiversidade marinha, fornecendo alimentos, água limpa, abrigo e segurança para peixes e invertebrados, como caranguejos, lagostas e camarões. É aqui que entra o homem e sua ganância: a fim de se aproveitar desse fenômeno, as empresas construíram acres e mais acres de fazendas de camarão no Golfo da Fonseca, sem se importarem com o fato, mais do que comprovado pelos residentes, de elas bloquearem o fluxo natural das águas. A intromissão do homem faz com que as marés altas e as ondas de tempestades tropicais avancem sobre a terra e causem os estragos que estão causando.
A situação é bastante crítica. A reportagem do jornal sobrevoou o local e constatou que pelo menos metade dos manguezais já foi destruída. A população residente, que não vê na chegada da indústria nenhum benefício, só destruição (situação normal em regiões tranquilas que se vêm atormentadas por grandes empresas) diz que o fim dos manguezais tem acontecido nos últimos dez anos. A falta de um sistema menos devastador, portanto, vai matando até mesmo a galinha dos ovos de ouro da indústria.
“A extensão do desmatamento pode ser vista do pico de uma montanha em San José de Las Conchas, 32 quilômetros ao norte de Cedeño, onde o panorama revela apenas fragmentos de manguezais protegidos entre enormes lagoas de camarão artificial e o oceano azul-turquesa”, revela a extensa reportagem assinada por Nina Lakhani. A repórter percorreu toda a região do Golfo, colhendo vários depoimentos.
Mas os números apontam para um crescimento das empresas, e, se formos considerar o pensamento de quem considera que o mercado precisa ser livre, para agir sem amarras, isto é o que importa. Foram exportados, no ano passado, US$ 216 milhões, e a estimativa é que esta cifra aumente este ano em 20%.
A pergunta é: para quem e para quê? Em conferência realizada no México, ano passado, para discutir os desafios da América Central, a chefe da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), Alicia Bárcena, alertou para os abismos de renda em países centro-americanos — Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá. Quando consideradas essas nações juntas, estima-se que 20% dos indivíduos mais ricos concentrem 47% de todos os rendimentos.
“Uma fina faixa de terra imprensada entre os oceanos Pacífico e Atlântico, a América Central é especialmente vulnerável à emergência climática global”, diz a reportagem do ”The Guardian”.
O meio ambiente, portanto, se impõe a uma questão partidária ou ideológica. Os dados são claros e seria preciso uma ação humana em conjunto para tentar parar este caminho destruidor que a humanidade decidiu trilhar contra si própria. Mas aqueles que decidem, às vezes de maneira solitária ou em grupo, denunciar tais violações de direitos, podem ser calados de forma cruel, condizente à barbárie.
Em janeiro de 2017, a organização Global Witness classificou Honduras como o país mais perigoso do mundo para se defender o planeta. A mesma organização acaba de lançar um estudo que mostra como os governos e empresas agem para silenciar os defensores do meio ambiente e aponta que no ano passado, aqui no Brasil, vinte ativistas ambientais foram mortos.
Berta Cárceres é um exemplo disso: encabeçou um movimento contrário à construção de uma represa hidrelétrica no rio Gualcarque, em Honduras, ganhou um prêmio pela sua atitude e foi assassinada em 2016. Em nome do desenvolvimento. Está mais do que na hora de avaliarmos melhor o tipo de vida que queremos como resultado de tanto “progresso”.
*Informação obtida no livro “Capitalismo e Colapso Ambiental”, de Luiz Marques (Ed. Unicamp)