Em evento na USP, Ricardo Galvão criticou os ministros Ricardo Salles e Marcos Pontes e defendeu os métodos do Inpe. Ex-diretor do Inpe concede coletiva nesta sexta-feira em SP
Patrícia Figueiredo/G1
O ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, exonerado do cargo em 7 de agosto, disse que eventual fim do Fundo Amazônia pode impactar o monitoramento do desmatamento na Amazônia realizado pelo Inpe. A afirmação foi feita durante evento na Universidade de São Paulo (USP) nesta sexta-feira (16).
“Pode haver um impacto principalmente no monitoramento da Amazônia. Porque esse sistema que nós temos hoje do Inpe, de monitoramento de todos os biomas, é um projeto que o Inpe com o BNDES. É um recurso da ordem de R$ 65 milhões que nós utilizamos pra fazer todos os serviços de monitoramento. Por enquanto, imediatamente, [a suspensão de repasses] não vai impactar porque o projeto já está assinado. Mas se esses países pararem de fornecer fundos para os projetos de monitoramento vai ter impacto, sim, nos trabalhos sobre o desmatamento na Amazônia”, disse Galvão.
Galvão criticou ainda a postura do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cujos argumentos ele classificou como “conversa de botequim”.
“Eu vi essa notícia: ‘Ministro cogita criar novo sistema de desmatamento’. Daí vocês podem ver uma das razões que eu usei o nome conversa de botequim. Aquela impressão da pessoa falar sem preocupação com a verdade”, disse.
Nesta quinta-feira (15), a Noruega, que entre 2009 e 2018 repassou 93,8% dos R$ 3,4 bilhões doados para o fundo, anunciou a suspensão do repasse de R$ 132,6 milhões. A Alemanha também já anunciou que suspenderia R$ 155 milhões em doações para o meio ambiente não vinculadas ao fundo. As medidas foram anunciadas após o aumento do desmatamento na Amazônia e mudanças na gestão do fundo.
Durante o evento na USP, o ex-diretor do Inpe também condenou a postura do ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, na defesa da instituição durante o processo que culminou em sua exoneração.
“Ele não defendeu como deveria. Quando foi realmente ter que enfrentar aí ele não defendeu. Inclusive ele reclamou muito que eu fui contundente e desrespeitoso com o presidente quando poderia ter mandado uma mensagem para ele. Mas, como eu mostrei aqui, eu mandei várias mensagens para ele antes”, disse.
“Nós temos um presidente da República que faz um ataque frontal ao Inpe, que é uma instituição do Ministério da Ciência e Tecnologia. Eu, se fosse ministro, teria respondido imediatamente, mesmo que custasse meu cargo. Isso ele não fez.”
O físico defendeu ainda que as estatísticas do desmatamento devem ser públicas e não podem ser divulgadas antes para algum “tenente ou sargento”.
“O presidente nos acusou de deixar os dados abertos. Sim, os dados estão abertos. Ele disse que eu era traidor do país porque eu tinha um dado e não mostrei primeiro pro tenente ou pro sargento. Eu já servi na Marinha, e eu tenho orgulho de ter servido, mas nem lá a gente tinha que fazer isso. Nós somos obrigados, pela Lei de Acesso à Informação (LAI), a disponibilizar esses dados. Tem ainda um decreto, de 2008, que nos obriga a compartilhar especificamente os dados espaciais”, disse Galvão.
Críticas a Salles
Galvão fez diversas críticas ao ministro Ricardo Salles, titular da pasta de Meio Ambiente.
“Eu fiquei triste e angustiado ao ouvir um ministro de Estado dizer que todas as instituições científicas do Brasil estavam aparelhadas pelo extremismo de esquerda. E isso daí não foi só ele: essa ideia está espalhada em várias partes do governo e é um preconceito. Então comecei a me perguntar: será que estamos de volta às trevas? Mas durante essa semana eu recebi mensagens belíssimas e elas me ajudaram a recuperar o espírito”, disse Galvão, em referência às afirmações feitas por Salles durante debate no Painel GloboNews.
O físico destacou que, após o debate com Ricardo Salles e Marcelo Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), solicitou ao ministro supostos dados que mostrariam problemas no monitoramento feito pelo Inpe.
”Eu pedi ‘Ministro, você poderia dar esses dados, que eu já pedi duas vezes por ofício?’ E ele disse que não poderia me dar porque esse trabalho foi feito gratuitamente pela empresa Planet. Então você pede para uma empresa, ela faz gratuitamente, e depois você aceita isso como dado científico. É isso que nos preocupa”, explicou Galvão na palestra.
O ex-diretor do Inpe comparou o monitoramento da Amazônia com precisão de 2 metros, oferecido pela empresa Planet, com “medir a distância entre Rio e São Paulo com uma régua de 10cm.”
Reputação do Inpe
Ao comentar a reputação do Inpe, Galvão citou Thelma Krug, pesquisadora do instituto que hoje atua como vice-presidente no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
“A Dra. Thelma é um exemplo de que, quando o presidente estava mexendo com o Inpe, não sabia muito bem com quem estava mexendo”, disse.
“Onde que a Nasa veio testar o seu modelo de satélite? No Inpe. Quando o presidente ataca o Inpe, veja a repercussão internacional que isso tem.”
“O ministro Salles teve a ousadia de dizer que nós nos vangloriávamos da ciência brasileira que estava atrás das coisas mais desenvolvidas”, completou Galvão. “Veja, o Gilberto Câmara foi responsável pelo Brasil, junto com a China, com nossos satélites, ser o primeiro país do mundo a tornar imagens de monitoramento da terra gratuitas. Hoje todos os outros países fazem. Então não é o Twitter que está falando bem do Inpe. Quem tá falando bem do Inpe é a revista Nature.”
Fundo bilionário sem atividade
Na prática, as atividades do Fundo Amazônia estão paralisadas neste ano após o Ministério do Meio Ambiente brasileiro decidir mudar a composição do comitê que integra o Fundo e o destino dos repasses.
Nenhum projeto foi aprovado para financiamento neste ano. No mesmo período do ano passado, quatro haviam sido aprovados. Ao todo, 11 propostas foram apoiadas em 2018, com investimento total de R$ 191,19 milhões.
O impasse sobre o futuro do Fundo se tornou público em maio, quando Ricardo Salles, titular do Ministério do Meio Ambiente, anunciou a intenção de alterar seu funcionamento e destinar recursos para indenizar proprietários de terras. Ele também disse haver indícios de irregularidades nos contratos firmados com ONGs.