Estudo aponta que Riacho Água Podre, na Zona Oeste de SP, tem qualidade péssima, ou seja, é um rio morto. Desafio Natureza 7 mostrou como poluição de água afeta saúde, economia e vida marinha. Para especialista, rio poluído é espelho da comunidade que vive ao redor. Riacho Água Podre, em SP, tem lixo e até colchão descartados nas águas
A poluição da água é um problema ambiental que está diretamente ligado à saúde da população, do ambiente e da sustentabilidade da região, de acordo com o estudo Observando os Rios, de 2019, da ONG SOS Mata Atlântica.
O Desafio Natureza do G1 foi até o estado do Alagoas para mostrar como a poluição da água afeta a vida da população, seja pela incidência de doenças, seja pelo comprometimento do turismo, segunda atividade mais importante do estado.
Principal causa de poluição da água, falta de coleta de esgoto atinge 83% dos alagoanos e ameaça saúde e turismo;
Com 47,6% dos brasileiros sem coleta de esgoto, meta de universalização até 2033 é ‘impossível’, diz especialista;
Copo e sacola encontrados no intestino de tartaruga-verde mostram os riscos de poluir a água com plástico;
Poluição da água supera caça como principal ameaça à extinção do peixe-boi marinho, diz especialista.
A poluição de água por falta de coleta e tratamento de esgoto é a principal forma de contaminação da água no Brasil, de acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA) e também acontece no estado mais rico do país.
Cerca de 20 mil imóveis regulares e 700 mil moradores de áreas informais despejam esgoto no Rio Pinheiros. Estes são os maiores desafios para a despoluição prometida pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), até 2022.
A poluição que compromete o Rio Pinheiros começa bem antes dele. Os afluentes que desaguam no Rio Pinheiros já chegam a ele contaminados.
Um deles é o Córrego Esmeralda, localizado na Vila Tiradentes, Butantã, Zona Oeste de São Paulo. Ele se junta ao Rio Jaguaré e vai desaguar no Rio Pinheiros na altura da Avenida Escola Politécnica, ao lado da USP.
Não por acaso, o Córrego Esmeralda é mais conhecido como Riacho Água Podre. O esgoto da população do entorno cai diretamente no rio. No dia da nossa visita, também foi possível ver ali bastante lixo residencial como garrafas PET e até um colchão boiando na água (veja no vídeo acima).
Cano de esgoto deposita dejetos diretamente no Riacho Água Podre, na Zona Oeste de São Paulo
Celso Tavares/G1
O problema no Riacho Água Podre é antigo. A medição de IQA feita pelo biólogo César Pegoraro, técnico da SOS Mata Atlântica, aponta que desde 2003 os resultados do Riacho Água Podre ficam entre ruim e péssimo. Isso significa que é um rio sem oxigênio, que não tem presença de peixes e algas. É um rio morto.
“Este rio é nosso espelho. Fazendo uma autoanálise da sociedade que está no entorno dele, desde 2003 nosso retrato oscila entre ruim e péssimo. Ele não é usado pela comunidade e é razão de desgosto. Já aconteceram vários pedidos da comunidade para que o rio fosse canalizado em uma tentativa de fazê-lo desaparecer do bairro ao invés da gente sonhar e brigar por um rio com qualidade diferente”, afirma César.
São várias as causas de poluição da água do Riacho Água Podre. A rede de esgoto de 17 mil moradores do entorno do rio não está terminada e isso, associado ao lixo das residências, completa o quadro de degradação.
“Por mais que a gente tenha coleta de lixo, as comunidades instaladas têm dificuldade de recolher seu lixo. Há uma grande quantidade de resíduos que é colocada na rua e tudo isso vem parar no rio. O que a gente tem é um caos de cenário, bastante conturbado e bastante degradado por causa de várias questões associadas”, afirma César.
O Riacho Água Podre, na Zona Oeste de São Paulo, tem Índice de Qualidade de Água (IQA) considerado péssimo no resultado consolidado de 2018
Celso Tavares/G1
Em nota, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) disse que está fazendo obras de infraestrutura no Coletor-Tronco Esmeralda para coleta e tratamento de esgoto no riacho Água Podre com previsão de término em 2020. Após a conclusão das obras serão realizadas outras complementares de prolongamentos de redes de esgoto, interligação e ligações de esgotos dos imóveis nas redes coletoras.
A administração regional da Subprefeitura Butantã informou que faz a limpeza manual do córrego, recolhe o lixo interno e de seu entorno e organizou um grupo de trabalho técnico para discutir a implantação de um parque linear em toda sua extensão. A última limpeza realizada no Água Podre aconteceu no mês de julho.
Riacho Água Podre, na Zona Oeste de São Paulo
Celso Tavares/G1
São Paulo concentra, inclusive, os únicos quatro rios com Índice de Qualidade de Água (IQA) péssimo na medição feita de março de 2018 a fevereiro de 2019 do citado estudo da SOS Mata Atlântica. Nenhum corpo d’água dos 278 monitorados no bioma Mata Atlântica no Brasil teve qualidade considerada ótima no período.
Rios com IQA péssimo:
Ribeirão dos Meninos em São Caetano do Sul, ABC paulista;
Riacho Água Podre, na Vila Tiradentes, Zona Oeste;
Córrego Tijuco Preto, no Jardim das Oliveiras, Zona Leste;
Córrego 3 Pontes, no Itaim Paulista, Zona Leste.
Vista do Riacho Água Podre
Celso Tavares/G1
Conclusão
De acordo com a Sabesp, as ações de despoluição do Riacho Água Podre contribuem diretamente para a melhoria da qualidade do Rio Pinheiros, já que o primeiro deságua no segundo levando toda a sujeira que recebeu dos moradores do bairro.
O mesmo acontece com o Riacho Salgadinho lá em Maceió, que é responsável pela falta de balneabilidade da Praia da Avenida, onde ele deságua. Neste ponto exatamente, o nível de coliformes fecais chega a milhões por 100 ml de água. Para se ter uma ideia, a quantidade aceitável de coliformes fecais para essa quantidade de água é de até mil.
Se tudo está interligado, precisamos cuidar do todo. Além de cobrar do poder público as obras de saneamento básico, principalmente de coleta e tratamento de esgoto, é importante assumirmos nosso papel como parte do problema e também da solução.
Dar o descarte correto ao nosso lixo é importante, mas é preciso ir além se considerarmos que mesmo em cidades como São Paulo a reciclagem está muito longe do ideal. A capital, que é a maior produtora de resíduos —tanto no volume total quanto na geração per capita — recicla apenas 3% do que coleta, segundo levantamento feito pela Associação das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).
Se reciclar não é suficiente, reduzir o consumo é um caminho urgente, principalmente de plástico. Veja dicas no nosso miniguia.
Riacho Água Podre: lixo residencial completa o estado de degradação causado por esgoto de milhares de famílias que vivem no entorno
Celso Tavares/G1
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