Um dia, apenas e pelo menos um dia sem ouvir/ler/assistir notícias tão terríveis como as que vêm me assombrando os últimos tempos. Decidi dar uma trégua à pressão sobre o coração, sobre os intestinos, sobre o fígado. Faria um passeio a um museu. Um dia como se fosse turista em minha própria cidade. Assim pensei, assim fiz nesta quinta-feira (31).
Escolhi o Museu de Arte Moderna (MAM) porque é um espaço que me remete à juventude. Adorava passear naquele parque, fuçava a Cinemateca, estava em todas as exposições. Há tempos não ia. E pus-me a fazer um caminho a pé, usando transporte público, para viver a experiência de um turista no Rio.
Escolhi o Museu também porque a arte é a melhor maneira de se descansar um pouco de nós mesmos. Diz o filósofo alemão Frederick Nietzsche, no livro “A Gaia Ciência” (Ed. Companhia das Letras):
“Justamente por sermos, no fundo, homens pesados e sérios, e antes pesos do que homens, nada nos faz tanto bem como o chapéu do bobo. Necessitamos dele diante de nós mesmos – necessitamos de toda arte exuberante… para não perdermos a liberdade de pairar acima das coisas”.
Correu tudo tão certo que… bem, sou forçada a dizer que nem parecia a mesma cidade, o mesmo sistema de transporte que, em geral, me proporciona minutos sem fim perdidos à espera, no ponto. É bem verdade que a distância entre minha casa e o MAM não é muito grande, e assim mesmo precisei usar três conduções. Um ônibus me levou ao Largo do Machado na estação do Metrô, que me deixou na Cinelândia e, de lá, depois de uma única parada de VLT, já estava na passarela em frente ao museu.
O MAM está expondo a belíssima arte de Carlos Vergara, “Prospectiva”. Artista caminhante, sensível, que traz com suas monotipias histórias do mundo todo e, a nossa, uma triste história, do Cais do Valongo. Orgulho nenhum de ter nesta cidade um lugar que foi palco de tanta crueldade com os escravos. Deixei-me emocionar contemplando cada peça. E que boa emoção!
Tem também a exposição de Zanine, que talhava a madeira tão lindamente, respeitando cada desenho que a própria natureza fez. Foi ainda o primeiro a denunciar o corte criminoso de árvores.
Subindo e descendo as passarelas, vai-se ainda desvelando peças de Tarsila do Amaral, Anita Malfati, Cândido Portinari… Há um corredor inteiro com vídeos, cada um mais interessante do que o outro. Dois deles me chamaram a atenção. Aline Motta deixou sua câmera flagrar o ir e vir de pedestres num canto movimentado de São Paulo, transformando-os em massa homogênea ao chão onde pisam. Tantas vezes me sinto assim… E Cinthia Marcelle, com a câmera numa grua, juntou músicos de percussão e sopro, numa encruzilhada, para mostrar que os limites podem ser explorados. E há bom resultado, no fim.
Há mais, muito mais para se ver no MAM, vale a pena a visita. No final, um bom café naquele amplo espaço, ouvindo som de pássaros e sentindo a brisa que faz o sol ficar quase meloso. Assim como a alma da gente, que lá se vai por minutos preciosos, horas talvez, pelo menos por um tempo, aos espaços onde possamos fluir.
O bom de estudar, pesquisar e escrever sobre desenvolvimento sustentável é que nos ajuda a ampliar o olhar e a refletir mais. Assim, não poderia ser mais coincidente minha reflexão sobre o transporte urbano neste passeio, do que o estudo que me enviaram do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) em que fica bem claro que possibilitar o transporte gratuito às populações é possível. E custaria R$ 70,8 bilhões ao ano, o equivalente a 1% do PIB. E se espalharia ainda mais, na cidade, a liberdade de ir, de vir, de conhecer espaços de arte.
O estudo foi escrito por Carlos Henrique de Carvalho, especialista em mobilidade urbana, em parceria com o Instituto. E foi apresentado na quarta-feira (30), em audiência pública que tratou da regulamentação do transporte como direito social na Câmara dos Deputados.
A avaliação do estudo é bastante coerente. Para os pesquisadores, o atual modelo do sistema de transporte está preso a um ciclo vicioso:
“O encarecimento das tarifas de ônibus empurra a demanda para o veículo individual, onerando ainda mais o custo do transporte público, já que menos pessoas pagarão por ele. Com mais carros nas ruas, os congestionamentos urbanos crescem, aumentando os gastos para as empresas de ônibus, que compensam a diferença em novos reajustes, resultando em outra perda de demanda. Além disso, hoje o sistema não oferece transparência sobre o lucro das empresas, transformando um direito em mercadoria”, diz o estudo que está disponível no site do Instituto.
A ideia levada para os deputados sugere alguns exemplos de como seria o financiamento do transporte público, pensando em três situações: tarifa zero de transporte público; redução de 30% no valor atual da tarifa; redução da tarifa de transporte público em 60%. Em qualquer dessas propostas o grande beneficiado será o cidadão comum, que passaria a usar mais transporte público. Assim também, com menos carros nas ruas, será possível respirar um ar menos poluído.
Não há, no estudo, menção aos táxis por aplicativo que, com a tremenda crise econômica em que estamos submersos, virou a única alternativa de subsistência para muitos. É um dado a mais que precisa ser levado em conta.
Na volta, ao fim do meu dia de turista, peguei o horário de rush. Achei que seria mais complexo, mas não, eu estava num dia de muita sorte. Talvez seja mesmo, como diz um conhecido meu, a boa energia que se atrai quando se quer estar bem. Pude ainda contemplar a paisagem – tão linda – do Parque do Flamengo ao entardecer enquanto, sentada num veículo sobre trilhos, com ar condicionado confortável, percorria o caminho até o Metrô.
E, em toda a minha caminhada, pessoas gentis cruzaram por mim. Entrei num vagão de Metrô bem cheio, mas um único assento, azul, restava incólume, à espera de alguém que necessitasse se sentar. Respirei aliviada ao ter à minha volta a alma de cidadãos que os reconheço como tais, não trogloditas que apostam em violência para, em tese, acabar com a violência.
Essa é a cidade que eu reconheço, esse é o povo que quero ter por perto.




