por Douglas SantosO WWF-Brasil promoveu na semana passada o II Webinar sobre o derramamento de petróleo entre professores de Universidades Federais especialistas em ecossistemas marinho, oceanografia e representantes das ONGs que atuam na resposta ao impacto ocasionado no litoral nordestino. O objetivo do evento foi promover uma troca de experiências entre as principais frentes de pesquisa e proporcionar uma visão abrangente sobre a atual situação do vazamento de petróleo cru no Nordeste brasileiro e quais os próximos passos ao público participante.Participaram do evento Vitor Sarno, Associação dos Servidores Ambientais Federais (ASCEMA Nacional), Prof. Dr. Pedro Pereira, Projeto de Conservação Recifal (PCR), Prof. Dr. Miguel Aciolly, Universidade Federal da Bahia (UFBA), Isabela Gomez, oceanógrafa especialista em monitoramento de poluição marinha, Prof. Dr. Carlos Teixeira e Prof. Dr. Luís Ernesto, Universidade Federal do Ceará – Instituto de Ciências do Mar (UFC LABOMAR), Ricardo Baitelo, Gerente de Clima e Energia do Greenpeace, Guilherme Dutra, Diretor da Estratégia Marinha e Costeira da Conservação Internacional, representando a Conexão Abrolhos, Enrico Marone, Gerente de Programas da Rare e Anna Carolina Lobo, Gerente do Programa Marinho e Mata Atlântica do WWF- Brasil. Além dos palestrantes o II Webinar sobre o derramamento de petróleo no litoral brasileiro contou com um público de 105 pessoas, que puderam interagir com perguntas aos palestrantes.Trabalho conjuntoO WWF-Brasil tem atuado na cooperação com ONGs, pesquisadores, universidades e movimentos sociais para identificar, minimizar e conter os impactos causados pelo vazamento de óleo. Além disso, tem fornecido Equipamento de Proteção Individual (EPIs) adequados aos voluntários que atuam na remoção do material. A realização do II Webinar é um exemplo de como o WWF-Brasil tem contribuído para qualificar o debate e realizar conexões entre frentes de pesquisa.A instituição também tem realizado campanhas de captação de recursos para financiar pesquisas. Para contribuir clique aqui.Segundo levantamento feito pelo WWF-Brasil, do total de áreas atingidas, 35% são áreas protegidas. Das mais de 340 localidades atingidas sendo 39 Unidades de Conservação, 18 áreas prioritárias e 1 terra indígena. “Segundo a Marinha, 4.000 toneladas foram retiradas das áreas atingidas. Porém, uma questão que temos discutido muito, é o tamanho real do impacto, quanto foi depositado nos fundos dos mares, mangues e recifes. Esses dados são importantes para definir as estratégias de conservação”, afirma Anna Carolina Lobo, Gerente dos Programas Marinho e Mata Atlântica do WWF-Brasil.Para apoiar nas ações futuras, algumas das sugestões de estratégias futuras é a criação de áreas de exclusão de extração de petróleo, criação de um fundo com recursos advindos dos royalties do pré-sal para reparação de danos e um sistema de resposta permanente de monitoramento e combate à vazamentos de óleo. “Impossível observar este cenário que estamos vivendo e não olhar com maior cuidado e precaução para a questão do óleo”, comenta Lobo.AbrolhosDesde o início de novembro manchas de óleo têm atingido a região de Abrolhos, uma das mais importantes áreas de proteção ambiental do Brasil e conhecida região de reprodução de baleias. “As manchas que têm chegado na região de Abrolhos são diferentes das que chegaram na costa de Pernambuco. Elas são menores e se estendem por uma área maior, diferente de Pernambuco quando uma grande quantidade atingia uma pequena porção de praia”, explica Guilherme Dutra, da Conexão Abrolhos e diretor da Estratégia Marinha e Costeira da Conservação Internacional.Diferentemente do que tem acontecido em outras regiões, em Abrolhos tem se observado que o uso de barreiras flutuantes de contenção é eficaz para conter essas pequenas manchas. “Já estamos em contato com a Marinha e empresas do setor petroleiro para conseguirmos mais barreiras de contenção”, completa Dutra.Monitoramento e acompanhamentoO monitoramento subaquático dos recifes na região da Área de Proteção Ambienta Costa dos Corais (APA Costa dos Corais) em Pernambuco indica a presença de óleo depositado no fundo do mar e sufocando corais. “Durante os mergulhos sentimos óleo suspenso na água o que complicou bastante a atividade. Infelizmente localizamos óleo em áreas de conservação ambiental e que podem prejudicar o ecossistema marinho”, afirma o Dr. Pedro Pereira, coordenador do Projeto de Conservação Recifal (PCR). A entidade realizará novos mergulhos em áreas mais profundas e mais distantes da costa nas próximas semanas.Além da presença visual de óleo, o material também já foi identificado em suspensão e micro particulado junto a plânctons na região próxima à Pernambuco e Alagoas. “Nossa preocupação é na preparação do monitoramento de longo prazo e entender qual é o real impacto na saúde dos animais e na qualidade da água. Já estamos realizando a coleta de peixes para analisar a presença do material”, diz a prof. Dra. Beatrice Padovani, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).Por toda a costa nordestina há relatos de pescadores que registram até 90% de queda nas vendas de pescado. “Precisamos de projetos de reestruturação social das áreas atingidas e viabilizar condições para não ocorrer a desintegração dos pescadores do Nordeste”, afirma o prof. Dr. Miguel Acciolly da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Segundo ele, os pescadores são os principais guias das equipes de limpeza pois conhecem as correntes locais e são importantes aliados no combate às manchas.No SudesteSegundo o professor Dr. Carlos Teixeira, da Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em modelagens e correntes marítimas, um dos principais entraves é a falta de clareza com relação à quantidade óleo que ainda pode estar à deriva. “Essa informação é fundamental para a elaboração de modelagens mais precisas sobre possíveis áreas atingidas. Dependendo da quantidade que ainda está no mar não podemos descartar a possibilidade de que o óleo atinja a costa do Rio de Janeiro e até mesmo São Paulo, mas tudo depende de quanto ainda está ‘escondido'”, afirma o professor.Os principais programas de modelagens de correntes oceânicas disponíveis no mundo, Hycom e Mercartor, apontaram para modelagens distintas de dispersão de óleo. “Sem as informações com relação à densidade inicial do material os cálculos ficam ainda mais imprecisos. Não dá para ter 100% de confiança em nenhuma modelagem diante do cenário que estamos passando”, diz Teixeira.Governo ignora especialistas do IbamaSegundo a Associação dos Servidores Ambientais Federais (Ascema Nacional), a atuação do Governo Federal tem sido descoordenada, não transparente, ineficaz e tem ignorado as recomendações técnicas de especialistas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama). Segundo a associação, o ministro do Meio Ambiente tem impulsionado a disseminação de fakenews e dificultado a compreensão da população sobre a criticidade da situação no Nordeste.Um dos exemplos, segundo a Ascema, no fim de outubro, por uma rede social o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu que um barco do Greenpeace poderia ser o causador do desastre ecológico, porém, não apresentou qualquer tipo de evidência, investigação ou indicio da acusação. “Esse tipo de postura não contribui em nada na solução do problema e ainda prejudica os trabalhos em andamento”, disse Vitor Sarno, da Ascema. O Greenpeace está acionando o ministro na justiça por crime de difamação.Segundo o Gerente de Clima e Energia do Greenpeace, Ricardo Baitelo, qualquer busca na internet mostra a situação delicada que os servidores do Ibama têm enfrentado. “Desde Brumadinho, incêndios na Amazônia e agora o vazamento de óleo o Governo Federal demonstrado uma inépcia exemplar ao lidar com tragédias ambientais”, diz Baitelo.Assista o Webinar completo:II WebinarDiga não ao leilão de petróleo na região de Abrolhos: clique aqui.
II Webinar do WWF-Brasil promove troca de conhecimentos sobre derramamento de petróleo

