Protesto nesta sexta (20) em Rennes, na França, pede justiça climática.
Damien Meyer/AFP
Estava preparada para comentar sobre o fato de a emergência climática ter sido expressão eleita como “do ano” pelo Dicionário Oxford. Nossa civilização está mesmo se amparando em signos e símbolos para ampliar a capacidade de os problemas afetarem um número maior de pessoas para que eles possam ser resolvidos. Neste sentido, foi boa a iniciativa da editora, já que o uso da expressão aumentou mais de cem vezes desde setembro do ano passado. E isto significa que mais pessoas estão se preocupando com a emergência climática.
Em sites e livros, eis que a emergência está declarada. Falta avisar aos chefes de nações que se autodeclaram negacionistas. E falta transformar a questão em assunto diário nos cafés, rodas de amigos, para que todo mundo possa fazer sua parte no sentido de tentar conviver com esta emergência de maneira a não torná-la uma catástrofe em menos tempo do que se imagina. Como?
Estava neste ponto com as minhas reflexões quando recebo a notícia, publicada no site da organização 350.org, de um relatório inédito do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O estudo dá conta de que os investimentos atuais e futuros na produção e uso de carvão, petróleo e gás natural não vão permitir que se alcance o limite seguro de aumento da temperatura média do planeta, que foi determinado pelos cientistas em 1.5º até o final do século.
Segundo o relatório, são sete os países principais produtores de combustíveis fósseis hoje: China, Estados Unidos, Rússia, Índia, Austrália, Indonésia e Canadá e três são produtores importantes, mas com ambições climáticas fortemente declaradas – Alemanha, Noruega e Reino Unido. Brasil, Argentina, México e Cazaquistão, além de países árabes, africanos e do Cone Sul (Argentina, Chile e Uruguai) completam a lista dos 27 maiores produtores de combustíveis fósseis no mundo. E nada indica que esta situação vá mudar porque a economia de muitos desses países depende desta produção. Assim sendo, a preocupação com o colapso ambiental, com consequências diretas no bem estar e na saúde dos humanos, nestes casos, ficará em segundo plano.
Aqui no Brasil temos ainda uma condição muito menos favorável. O presidente Jair Bolsonaro é auto declarado negacionista, não acredita no link entre emissões de gases do efeito estufa e aquecimento global.
Fato é que não está mesmo sendo fácil viver como num cenário de filme cujo final já sabemos. E é um final triste, em que a vida passa a ter um valor secundário e vai ser preciso lutar para se alcançar ar puro, água limpa e terra boa. Sendo assim, mais do que inserirmos uma expressão numa de nossas principais fontes de informação global, os humanos precisam também, para muitos estudiosos, de se reconciliar com o jeito simples de viver. Abandonar um pouco os confortos que começamos a acumular desde a Revolução Industrial.
Gosto da proposta do Bem Viver, conceito que se imagina não como imperativo global, porque entende e respeita o múltiplo. A diferença para o nosso modus vivendi ocidental começa aí. E antes de abrir espaço para as críticas, preciso afirmar que não estou promovendo a ideia de uma volta à Idade da Pedra.
Economista e ex-ministro de Energia e Minas do Equador, Alberto Acosta, o autor do conceito do Bem Viver, que durante muito tempo fez parte da Constituição daquele país, propõe uma ruptura civilizatória.
“O Bem Viver será uma tarefa de (re)construção que passa por desarmar a meta universal do progresso em sua versão produtivista e do desenvolvimento enquanto direção única, sobretudo em sua visão mecanicista do crescimento econômico e seus múltiplos sinônimos. O Bem Viver apresenta-se como uma oportunidade para construir coletivamente novas formas de vida”, escreve ele no livro “O Bem Viver” (Editora Autonomia Literária e Elefante).
Não se trata de criar formas de “desenvolvimento alternativo”. Mas será preciso, isto sim, criar em conjunto “alternativas de desenvolvimento”. É do que se trata.
Como não podia deixar de ser, o conceito se nutre na sabedoria indígena, já que muitos desses povos vivem sem uma ideia análoga à do desenvolvimento, vista por Acosta como õe uma ruptura civilizatória.
“O Bem Viver será uma tarefa de (re)construção que passa por desarmar a meta universal do progresso em sua versão produtivista e do desenvolvimento enquanto direção única, sobretudo em sua visão mecanicista do crescimento econômico e seus múltiplos sinônimos. O Bem Viver apresenta-se como uma oportunidade para construir coletivamente novas formas de vida”, escreve ele no livro “O Bem Viver” (Editora Autonomia Literária e Elefante).
Não se trata de criar formas de “desenvolvimento alternativo”. Mas será preciso, isto sim, criar em conjunto “alternativas de desenvolvimento”. É do que se trata.
Como não podia deixar de ser, o conceito se nutre na sabedoria indígena, já que muitos desses povos vivem sem uma ideia análoga à do desenvolvimento, vista por Acosta como “uma imposição cultural herdeira do saber ocidental”. Vivem. E esta tarefa – viver – é alçada a um primeiro plano de prioridades. Como não?
Que não se pense que viver não dá trabalho. Dá, e muito. Pego como exemplo a comunidade de cerca de 19 milhões de pessoas que vivem na Romênia, lado a lado com outra comunidade, de cerca de seis mil ursos-pardo, maior carnívoro sob proteção na Europa. No calor, eles saem de seus refúgios e atacam pessoas. Como a caça a estes animais está proibida, a comunidade da Romênia está vivendo acuada, sofrida, com medo, porque a população de ursos está se tornando perigosa. Já se fala em exterminá-los, que seria a única forma de os romenos voltarem a viver em paz.
No mesmo dia, outra notícia sobre o mundo animal: os burros estão sendo destruídos porque os chineses descobriram que sua pele serve para fazer feijão, uma gelatina que trataria anemia e a má circulação sanguínea. Por causa disso, os chineses precisam de 4,8 milhões de burros por ano. No ritmo atual, segundo reportagem do jornal “The Guardian”, a população global de burros de 44 milhões de habitantes seria reduzida pela metade nos próximos cinco anos.
“As populações de burros no Brasil caíram 28% desde 2007, 37% no Botsuana e 53% no Quirguistão, e há temores de que as populações no Quênia e no Gana também possam ser dizimadas pelo comércio de peles”, segundo um relatório do Santuário dos Burros.
Ocorre que os burros apoiam cerca de 500 milhões de pessoas em comunidades pobres do mundo todo. É o animal que carrega as coisas, inclusive para pequenos comerciantes locais.
Temos assim, portanto, duas situações limite que mostram a vida se impondo. No caso dos ursos, são vidas humanas contra vidas de um animal forte, carnívoro, portanto importante na cadeia alimentar porque deve manter longe outros que podem, também, dificultar a vida do homem. Não sei se estou certa, mas talvez as casas tenham invadido as terras dos ursos. Que tal pensar em mudar isto?
No caso dos burros, é o mesmo que acontece com as baleias, guardadas as devidas proporções. Se um animal tem algo que pode facilitar a vida do homem no planeta, pobre dele: será dizimado sem dó. Mesmo que haja outras soluções naturais ao redor, sem precisar assassinar os bichos, muitos humanos não vão pensar duas vezes. E, para isso, se valerão não de sua força ou potência própria, mas das ferramentas que a inteligência lhes possibilitou criar. Uma luta injusta.
E assim, fui me afastando do meu tema principal, a questão das emissões, da emergência climática, para afirmar a importância da vida, uma espécie de emergência vital. É, no fim e ao cabo, o principal motivo também que deve nos mover em busca de racionalizar o uso dos combustíveis fosseis. Está tudo intrinsecamente ligado, esperando apenas que os humanos se decidam a estabelecer prioridades.
Sobre emergência climática e o Bem Viver, conceito que elege a vida em primeiro lugar




