Economista indiano criador do IDH, Amartya Sen faz críticas à própria criação: ‘Não podemos ser ingênuos de que isto possa medir a liberdade’ Economista indiano Amartya Sen palestra em 2015 no encontro Fronteiras do Conhecimento
Divulgação/Fronteiras do Conhecimento
Naquele dia eu exigi da repórter que fazia parte da equipe do caderno que editava no Globo, o “Razão Social”, um serão e tanto. Camila Nóbrega, a repórter, e eu, percorremos apressadas os caminhos para chegar ao Centro do Rio e, depois, à Barra da Tijuca, Zona Oeste. Fomos no meu carro e, por sorte, não pegamos muito trânsito.
Estávamos em maio de 2012, a poucos dias do início da Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável), e nosso objetivo foi acompanhar os passos do prêmio Nobel indiano Amartya Sen, que estava no Brasil para lançar seu livro “Justiça, esperança e pobreza”.
Junto com o paquistanês Mahbub ul Haq, Sen criou o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), onde o Brasil se posiciona, este ano, no 79º lugar no ranking, segundo o relatório lançado hoje pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano (Pnud).
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Nossa correria valeu a pena. Tínhamos como meta ouvir de Amartya Sen os bastidores da criação do IDH, em 1989, e de como este índice passou a ser considerado, pelas economias do mundo todo, uma espécie de aposto ao Produto Interno Bruto (PIB), medição de riqueza criada em 1937. Ouvimos mais do que isso. O Prêmio Nobel nos brindou com reflexões críticas sobre o IDH, que recupero hoje para os leitores:
“Este índice é uma forma muito bruta de representar qualquer coisa. É incompleto. Surgiu numa conversa com meu amigo Mahbub ul Haq. Ele negava o PIB. Precisávamos de uma abordagem do desenvolvimento humano. Mas não podemos ser ingênuos de que isso possa medir a liberdade das pessoas. Se eu lhe perguntar : ‘Como está sua vida?’, você vai me responder: ‘137’? Não é um índice que vai dar esta resposta”. – Amartya Sen
O indiano também escreveu “Desenvolvimento como liberdade” , editado aqui no Brasil pela Companhia das Letras em 2009.
Não era recente a crítica sobre medições de riqueza globais. Com Joseph Stiglitz e Jean Paul Fitoussi e a pedido do ex-presidente da França Nicolas Sarcozy, Amartya Sen formara a Comissão para a Mensuração do Desempenho Econômico e do Progresso Social, para:
identificar os limites do PIB como indicador de desempenho econômico e os problemas associados a sua mensuração
detectar quais informações adicionais seriam necessárias para a construção de indicadores mais relevantes de progresso social
avaliar a conveniência de se utilizar ferramentas de mensuração alternativas e discutir como apresentar as informações estatísticas da maneira apropriada
O relatório feito pelos três economistas, e entregue em 2009, chamou-se Relatório Stiglitz-Sen-Fitoussi e deu início a outro estudo, lançado pela OCDE no ano passado, descartando o PIB como principal critério econômico global.
“A principal conclusão a que chegamos (no relatório Stiglitz-Sen-Fitoussi) foi que não há um índice que congregue todas as informações de que precisamos para medir a qualidade de vida das pessoas”, disse Amartya Sen quando nos concedeu a entrevista em 2012. “Nem sempre se pode captar tudo de forma quantitativa. Nada vai substituir a comunicação entre os indivíduos. Os índices são só analogias. Um índice é antipensamento, antipoesia. Não podemos nos concentrar tanto neles.”
Foto da reportagem publicada no jornal O Globo, em 2015
Amélia Gonzalez/Arquivo Pessoal
A reflexão do economista indiano ficou pulsando em nossas próprias divagações quando editamos a entrevista. Como jornalistas, precisamos de sínteses para comunicar o mais prontamente possível. No entanto, é justamente na hora de simplificar que deixamos à borda detalhes importantes que não deveriam ser desprezados.
O que significa, por exemplo, o fato de o Brasil ter caído uma posição no ranking mundial em relação à publicação interior? O que está por trás do fato de o país ter a 79ª posição numa lista de países “com alto desenvolvimento humano”?
Para botar mais lenha nesta fogueira de reflexões, podemos começar a desvendar um pouco mais este véu e trazer micro revelações. Aqui neste espaço onde moro, no estado do Rio de Janeiro, a extrema pobreza aumentou 47% entre 2014 e 2018 e atinge atualmente 652 mil pessoas.
Analisando friamente, num estado com mais de 16 milhões de pessoas, este número pode ser considerado até pequeno. Sob o ponto de vista micro, no entanto, podemos fazer outra análise da notícia: em apenas quatro anos, 208 mil habitantes caíram na miséria e ganham, por mês, R$ 150, quantia que é fácil ser gasta num almoço, por exemplo.
A escavação sobre a análise pode ir mais fundo. Com tais privações, essas pessoas miseráveis se veem sem um bem maior, a liberdade. Existem boas razões, argumenta Sen, para que se veja a pobreza como uma privação de capacidades básicas, não apenas como pobreza.
Uma pessoa sem dinheiro sequer para comprar uma roupa não pode, por exemplo, pleitear um emprego num sistema que privilegia a imagem (o índice de desemprego no Rio de Janeiro subiu de 6,3% em 2014 para 15% em 2018).
Sen escreveu no “Desenvolvimento como liberdade” que o desemprego não é “meramente uma deficiência de renda que pode ser compensada por transferências do estado (a um pesado custo fiscal que poder ser, ele próprio, um ônus gravíssimo). É também uma fonte de efeitos debilitadores muito abrangentes sobre a liberdade, a iniciativa e as habilidades do indivíduo.”
Destrinchar os números revelados em índices oficiais faz parte, talvez, de uma rebeldia dentro de um sistema tão apegado a dados. A análise, num recorte micro, abre a chance de se perceber a multiplicidade, a diversidade, e tirar estas expressões do nicho macro para trazê-las à dimensão do dia a dia. Há mais vitalidade e menos hegemonias acachapantes nesta possibilidade.
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Foi esta nossa trilha de pensamento. Camila e eu terminamos bem tarde nosso trabalho naquele dia e chegamos bem cedo à redação no dia seguinte. O cansaço não era maior, no entanto, do que o desejo de espalhar, para nossos leitores, o pensamento de um prêmio Nobel. Sobretudo, o pensamento crítico de um economista sobre seu próprio trabalho de pesquisa.
Amartya Sen, hoje, tem 86 anos. Em sua entrevista mais recente, publicada no site da revista “The New Yorker”, ele se mostra preocupado com o sistema político da Índia, uma democracia frágil. Fala sobre falhas no sistema eleitoral, sobre a falta de independência da mídia, sobre o medo das pessoas.
“A democracia é governo por discussão e, se você tem medo de discutir, não terá democracia, não importa como conte os votos”, diz ele, citando o filósofo britânico John Stuart Mill.
Está aí uma falha que Amartya Sen não pode contabilizar sobre seus ombros. O indiano nunca se negou ao debate, mesmo quando as críticas recaem sobre seus próprios estudos e pesquisas.