O WWF-Brasil preparou um material para te ajudar a detectar mentiras e armadilhas sobre o tema que circulam pelas redes sociais.Por Renata PeñaO desmatamento ameaça nossas principais florestas: em 2019, alcançamos índices recordes na Amazônia e no Cerrado. Essa devastação prejudica a biodiversidade – milhares de espécies de animais e plantas (algumas delas importantíssimas para a produção de medicamentos) – e também a sobrevivência dos povos tradicionais. Porém, existe uma forma de administrar uma floresta e obter dela benefícios econômicos e sociais e ao mesmo tempo respeitar o ecossistema: é o manejo florestal sustentável. Por meio de um planejamento detalhado, ele viabiliza a exploração sem prejudicar a sociobiodiversidade existente no local. Ou seja, é possível conservar as espécies de animais e de plantas e também o modo de vida e de subexistência das pessoas. Para ajudar você a detectar mentiras e armadilhas quando o tema são as florestas e o desmatamento, preparamos uma serie de respostas a algumas das mentiras mais difundidas hoje na internet. Veja a seguir quais são os mitos mais comuns e as verdades por trás de cada um.MITO 1: O monitoramento do desmatamento na Amazônia é manipulado VERDADE: o monitoramento do desmatamento na Amazônia é considerado o melhor do mundo e seu modelo é copiado em vários paísesDesde 1988 os dados de desmatamento na Amazônia são disponibilizados gratuitamente no site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações. O INPE possui dois sistemas de monitoramento: um é o Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes) e o outro o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter). O Prodes é reconhecido internacionalmente como o melhor sistema de monitoramento de florestas tropicais do mundo e, segundo diversos especialistas, inspirou a criação de diversos sistemas parecidos em outros países. MITO 2: o manejo florestal sustentável é pernicioso para o meio ambienteVERDADE: O manejo florestal sustentável é um modelo que permite a exploração racional com técnicas de mínimo impacto ambiental sobre os elementos da naturezaNo Decreto nº1.282, de 19.10.95, o termo manejo florestal sustentável é definido como administração de floresta para a obtenção de benefícios econômicos e sociais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema. O manejo sustentável deve ser economicamente viável, ecologicamente correto e socialmente justo, priorizando a floresta “em pé”. Também possibilita que as populações nativas vivam dos recursos proporcionados pela própria floresta. Ao mesmo tempo que as populações evitam a derrubada da floresta, recebem um valor econômico. MITO 3: a madeira é o principal valor da floresta amazônicaVERDADE: os serviços ambientais prestados pela floresta são o grande valor da Amazônia. A floresta oferece à humanidade muito mais do que apenas madeira. Pesquisadores estimaram em mais de R$ 1,5 trilhão de dólares os serviços de estocagem e sequestro de Carbono, evitando assim que ele seja lançado como gás de efeito estufa. Além disso, a Amazônia também oferece uma infinidade de frutos nativos ricos em nutrientes e plantas importantíssimas para a produção de medicamentos. A Amazônia garante a estabilidade do clima e da biodiversidade e possui papel fundamental no ciclo hidrológico. O vapor d’água gera a precipitação não só na Amazônia, mas também na região centro-sul do Brasil, bem como em países vizinhos. MITO 4: O ponto de não retorno da Amazônia não existeVERDADE: O ponto de não retorno pode chegar entre 15 e 30 anos. Especialistas renomados de todo o planeta e diversos estudos afirmam que o ritmo acelerado do desmatamento está levando a floresta amazônica a uma situação na qual a floresta não consegue mais se regenerar diante das agressões provocadas pelo homem. Esse “ponto de não retorno” pode chegar já entre 15 a 30 anos se o ritmo da devastação for mantido ou aumentar. MITO 5: o corte seletivo e a regeneração natural não são a melhor forma de manejar a floresta tropical. VERDADE: Mesmo a extração legal de madeira tem efeitos negativos sobre a floresta.Embora a extração seletiva tenha por alvo apenas as árvores com valor comercial, os métodos de extração geralmente provocam danos colaterais. Segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), para cada árvore comercial que é retirada, são danificadas outras 27 árvores com mais de 10 cm de diâmetro, são construídos 40 m de estradas e são abertos 600 m² no dossel florestal. MITO 6: os locais de maior diversidade em todo mundo são os ambientes cultivados pelo homem. VERDADE: a destruição da floresta para implantação de um sistema agrícola ocasiona grande perda de biodiversidade. O cultivo de espécies agrícolas, praticado principalmente para obtenção de alimento, geralmente exercem pressões socioambientais e geram grandes impactos. Quando se destrói uma floresta natural para implantação de um sistema agrícola, ocorre uma grande perda de biodiversidade (o local que abrigava milhares de espécies passa a abrigar apenas uma ou duas). Por consequência, o clima local e o regime de chuvas são alterados. O Brasil é um dos países mais ricos em biodiversidade do mundo. Junto com outros 16 países, é responsável por 70% da biodiversidade do planeta. Nossos 05 biomas terrestres (Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Caatinga e Campos do Sul) abrigam 20% das espécies do planeta, constituindo 20% da flora global. A lista de espécies da flora do Brasil publicada pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), identificou 46.097 espécies, entre plantas, algas e fungos. Cerca de 43% dessas espécies são endêmicas (exclusiva) do território nacional, colocando o Brasil como o país com a maior riqueza de plantas no mundo. Esse número cresce a cada dia, pois novas espécies são identificadas e descritas. Em média, identifica-se 250 novas espécies por ano.MITO 7: o manejo florestal sustentável promove a concentração de renda e a exclusão socialVERDADE: a exploração dos recursos florestais de forma sustentável, na maioria das vezes pelas populações tradicionais, é um fator importante de geração de renda local e promoção do desenvolvimento sustentável. Proporcionaria mais que trabalho, mas uma renda significativa para os agricultores familiares. A finalidade é a de obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema. MITO 8: não há exemplos de como o manejo florestal sustentável ajuda as comunidades locaisVERDADE: Um exemplo de como o manejo florestal sustentável promove a geração e a distribuição de renda é o trabalho desenvolvido pela Cooperativa Mista da Flona Tapajós, Coomflona. Essa organização de base comunitária possui uma concessão florestal para fazer o aproveitamento madeireiro e não madeireiro dentro da Floresta Nacional do Tapajós, Unidade de Conservação Federal de aproximadamente 512 mil hectares. A Cooperativa foi criada em 2005 e desde então executa atividades de Manejo Florestal Comunitário dentro da Flona, beneficiando diretamente cerca de mil famílias que vivem dentre desta Unidade de Conservação de Uso Sustentável. A criação da cooperativa foi motivada pela mobilização das lideranças locais, com o objetivo de minimizarem a exploração ilegal dos recursos florestais em suas comunidades. Após debates e seminários sobre o assunto, fomentados pelo Projeto ProManejo do IBAMA, a população local optou pela criação da cooperativa. A Coomflona possui Plano de Manejo Florestal Sustentável aprovado IBAMA, e recebeu em 2013 o Selo do FSC (Forest Stewardship Council), que possibilita à Cooperativa acessar mercados mais exigentes, preocupados com a origem do produto, tendo em vista que a certificação indica que a madeira extraída resulta de um manejo responsável socialmente, ambientalmente e economicamente MITO 9: o uso intensivo e extensivo de madeira tropical que vai garantir a perenidade das florestasVERDADE: Incentivada pela elevada demanda por produtos madeireiros, a extração legal e ilegal de madeira é uma causa importante da destruição da floresta amazônica. Embora a extração sustentável de madeira possa ser uma fonte de renda de longo prazo, muitas vezes a atividade não é feita de acordo com esses padrões. É comum que pessoas e empresas interessadas na exploração madeireira optem por tocar seus negócios de forma ilegal. Isso provoca vários impactos de amplo alcance, inclusive a fragmentação do habitat das espécies e significativas perdas financeiras. Grandes áreas de floresta são griladas e vendidas a preços abaixo de mercado. Essas áreas costumam ser terras públicas, e as instituições estatais não conseguem ter controle total sobre sua ocupação. Documentos falsos são preparados e uma extensa rede de corrupção é envolvida no esquema, para garantir o sucesso do negócio ilegal. Segue-se, então, um esforço apressado de maximizar a extração de madeira e obter a maior quantidade de lucro o mais rapidamente possível. Resguardar os estoques de madeira para futuras colheitas tem sido objeto de pouca consideração. Em seguida, as áreas degradadas são destinadas à agricultura e à pecuária. As consequências são graves: perda de biodiversidade, aumento do risco de extinção de animais silvestres e perda dos serviços ecológicos prestados pela floresta, como a manutenção do clima e do ciclo hidrológico. MITO 10: derrubar a floresta não acaba com a água infinita da Amazônia VERDADE: o homem está secando a água da Amazônia Um estudo inédito do WWF-Brasil e do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado na revista científica Water/MDPI revelou dados extremamente preocupantes: em média foram perdidos 350 km2 de área coberta por ambientes aquáticos por ano desde a década de 1980 – áreas úmidas como várzeas, mangues e lagos. O documento mostra que a diminuição de áreas alagadas é causada pelas alterações no regime de chuvas, mas também pelo desmatamento e uso do solo, e pela realização indiscriminada de obras de infraestrutura, como por exemplo barragens para a produção de energia. Isso traz consequências graves, tanto para o meio ambiente como para as pessoas, porque a redução de área alagada diminui a população de peixes, os estoques pesqueiros e o consumo de proteína pela população local.
10 verdades sobre o desmatamento

